Sónia Morais Santos

 

Madalena

Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 8138

Olhámos um para o outro e soubemos que nada mais importava. A Madalena nasceu dia 28 de Junho, às 19h39, de cesariana, linda de morrer.

E pronto. Hei-de morrer sem saber o que é isso de parir, com força e suor e sangue e talvez até gritos e tudo aquilo que se vê nos filmes e a que eu achava que também tinha direito. Não fora eu uma mulher com muitos afazeres e pouco tempo livre para a depressão e juro que deprimia, mas deprimia mesmo à séria, que a ideia de haver experiências que me estão definitivamente vedadas para o resto da vida aborrece-me a valer. Adiante. A verdade é que a Madalena nasceu e é linda e eu estou perdidamente apaixonada por ela. E com tamanho amor dentro do peito é difícil uma pessoa dedicar-se à depressão, de modo que mais vale andar para a frente e apreciar a felicidade única de ter um bebé em casa do que ficar a remoer num momento que já passou e que não tem volta.
A Madalena nasceu no dia 28 de Junho. Era domingo e, apesar de ser o dia do Senhor, o meu querido obstetra, Dr. Fernando Cirurgião, abriu a porta do consultório de propósito para me fazer mais um toque (já tinha feito um na véspera e outro na antevéspera), tudo para ver se o colo do útero se resolvia a abrir, qual porta mágica, para dar passagem à minha miúda. Um parêntesis para dizer, de resto, que para aquele médico não há fins-de-semana ou feriados, dias santos ou dias não, o homem trabalha como nunca se viu, de dia, de noite e de madrugada, sempre com um sorriso, sempre fazendo-nos sentir que tem todo o tempo para nos aturar, que somos a única grávida que importa, que não houve mais nenhuma antes de nós e não vai haver mais nenhuma a seguir.
O estúpido do meu colo estava mole mas ainda fechado. E assim fui para casa, com ordem para dar corda aos sapatos, coisa que fiz de imediato e com tanto vigor que ainda hoje deve haver pessoas incrédulas por terem avistado, naquele domingo, uma grávida muito grávida a subir e a descer a escadaria do Pavilhão Atlântico vinte vezes, isso mesmo, vinte vezes vinte e sete degraus, o que perfaz 540 degraus, subidos e descidos com a destreza de uma atleta sem pança. Além dessas manobras, fiz vários quilómetros a pé, da zona sul do Parque das Nações até à zona norte, junto à Ponte Vasco da Gama, para depois regressar à zona sul outra vez, praticamente morta mas com a sensação de dever cumprido.
Chegada a casa, sentei-me a almoçar com a minha família e na última garfada tive a primeira contracção. Cinco minutos depois, outra. Cinco minutos depois, outra. Comecei a sorrir. Pensei: resultou! E outra. E outra. Durante uma hora foi assim. Liguei ao médico e ele mandou-me para a Cuf Descobertas, pedindo notícias em breve. Esse momento foi lindo. Inesquecível. Tal e qual os filmes, tal e qual como eu sonhava. Os miúdos de repente recambiados para a avó, o coração aos pulos, o pai apatetado (tão apatetado que, já eu estava a caminho do bloco, percebeu que se tinha esquecido da mala da Madalena), e a coisa estava tão embalada que, apesar de vivermos a um minuto de carro da Cuf Descobertas, sugeri ao Ricardo que buzinasse e pusesse os piscas: «É o nosso terceiro filho, nunca tivemos isto, toca a aproveitar!»
Mas o colo continuou fechado e as contracções estavam ferozes. O curioso é que não doíam quase nada. Até ao momento em que me disseram que ia mesmo ter de ser cesariana. Com o colo tão fechado e com contracções tão seguidas, o risco do meu útero rebentar na zona das cicatrizes anteriores era grande. Não dava para esperar que o colo se resolvesse a abrir. E, de imediato, as contracções começaram a doer. Nesse instante tive muita, mas mesmo muita vontade de chorar. Não de dor, mas de desilusão. Tinha acreditado que à terceira podia ser de vez. E afinal… afinal havia de morrer sem saber o que era isso de parir, com força e suor e sangue e talvez até gritos e tudo aquilo que se vê nos filmes e a que eu achava que também tinha direito.
Mas pronto. Passado pouco tempo o Dr. Fernando chegou e olhou-me com aquele olhar sereno que sossega, passado pouco tempo o pai Ricardo entrou no bloco (porque felizmente a Cuf Descobertas decidiu deixar os pais assistir às cesarianas), e passado mais um pouco o anestesista baixou o pano e nós vimos a nossa menina sair de mim para o mundo inteiro. Uma nova pessoa, uma nova vida, um livro em branco onde vamos sempre tentar escrever o melhor que podemos, o melhor que sabemos. Olhámos um para o outro e soubemos que nada mais importava. A Madalena nasceu dia 28 de Junho, às 19h39, de cesariana, linda de morrer, e nós estamos irremediavelmente apaixonados por ela. O resto? O resto são detalhes.

 

Esperança no terceiro parto

Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 7628

Sei que é pedir muito a um feto, sei que ela não tem culpa dos filmes todos que eu vi e  me formataram os sonhos, sei que o mais certo é marcarmos a cirurgia.

A  culpa é dos filmes. Uma pessoa acostuma-se a ver senhoras de repente aflitas, de repente a dizerem que chegou a hora, de repente a deixarem os maridos em transe com as águas que as inundaram, a zarparem muito depressa para a maternidade, uma pessoa acostuma-se a isto e não imagina para si outra cena, de modo que quando o guião é outro fica-se com a sensação de que o nosso filme não presta e que, se fosse visionado por um qualquer crítico da sétima arte, não levava mais do que uma desprezível bola preta.
Quando tive o primeiro filho, o dia do parto foi marcado mas a indução ainda permitiu algum suspense. O obstetra a dizer que, em princípio, a criatura não ia descer para a porta de saída, eu a insistir que queria pagar para ver (estava num hospital privado, de maneira que a expressão não é de todo descabida), e assim permaneci algumas horas, arfando e gemendo, capaz de espetar um bofardo no nariz do Ricardo sempre que ele me chamava a atenção para o modo correcto de respirar, e pedindo a Deus e aos anjos uma epidural fresquinha. No final, o esforço não foi retribuído pelo Manel que, do alto dos seus quatro quilos, se escusou aproximar-se da luz ao fundo do túnel e assim fui aberta e depois cosida, acabando em águas de bacalhau qualquer ideia de um parto natural.
Se o primeiro parto já deixou algum amargo de boca, o segundo foi pior. O obstetra resolveu informar-me que depois de uma cesariana a única opção era outra cesariana, e esta parva comeu a teoria sem sequer fazer uma mísera pesquisa no Google, de maneira que no dia marcado chamei um táxi, enquanto o Ricardo foi levar o mais velho ao colégio. O motorista, coitadito, ainda há-de ter sentido um tremor percorrer-lhe a espinha, quando viu aquele barril com pernas abeirar-se da sua viatura com duas malinhas na mão e a dizer «É para a Cuf Descobertas, se faz favor». Fosse por ser boa alma, fosse por não querer ver o seu táxi invadido por líquidos maternais, o homem abriu muito os olhos e perguntou: «Chegou a horinha, foi?», e pisou a fundo o acelerador. Foi preciso explicar-lhe que não havia pressa, que escusava de nos matar aos três, e a boa alma – que também há-de ter visto muitos filmes  – lá seguiu entristecida, esvaziada de emoção. Daí a nada já eu estava com o bucho aberto e de novo fechado, como se tivesse ido remover um quisto ou outra nascida desinteressante, sem ais nem uis, sem a mínima participação na cena, sem esforço, dor ou cansaço.
É por isso que todos os sonhos de um parto inesperado, daqueles que os filmes nos espetam pelos olhos dentro desde que o cinema se dedicou à maternidade, todos esses sonhos – dizia – estão agora depositados na pequena Madalena, ela que já se revelou tão diferente dos irmãos, não só porque se mexe na minha barriga muito mais do que qualquer um dos rapazes, como pelos parcos quilos que me fez engordar, nove ao todo, num bestial contraste com os 25 que ganhei na primeira gravidez e os 20 que somei na segunda.
O novo obstetra vai pondo alguma água na minha fervura, explica que não poderemos esperar até às 40 semanas, que o meu útero corre o risco de romper na zona das anteriores cicatrizes, que nunca poderemos induzir porque as contracções com a indução são demasiado intensas para um útero tão costurado, que é pouco provável que ela decida nascer espontaneamente antes de ele lá ir pescá-la. Mas a verdade é que eu ainda deposito alguma fé e imagino todos os dias que, de repente, vai desabar um mar morninho nas minhas pernas, que a barriga se me vai pôr dura como uma pedra a cada cinco minutos, e que vou acordar o Ricardo com um: «Querido, chegou a hora», para de seguida o ver desgovernado pela casa, a pôr pasta dos dentes na barba, seguindo no carro com os quatro piscas ligados e a buzinar que nem um demente, apesar do hospital ficar a 200 metros da nossa casa.
Sei que é pedir muito a um feto, sei que ela não tem culpa dos filmes todos que eu vi e que me formataram os sonhos, sei que o mais certo é marcarmos a cirurgia e pronto, mais um que nasce sem a emoção do nascer. Resta-me o consolo de ter o pai ao meu lado, coisa inédita nesta aventura da maternidade. A Cuf Descobertas acaba de decidir tornar-se um hospital  amigo dos bebés e dos progenitores, permitindo que os pais (que o desejem) assistam às cesarianas, estando ao lado das mulheres nessa hora mágica em que uma nova vida sai de uma barriga para o mundo. Esta atitude não vai fazer o meu filme uma obra-prima mas já vai dar uma grande ajuda a que não seja um fracasso de bilheteira.

   

Página 3 de 3

Editorial.

Três notas

alt

Setembro é mês de regressar às aulas, mas também de retomar rotinas, reorganizar horários, cortar o cabelo, destralhar a casa, trocar...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais