Um filho aos 40 é amor, felicidade, vida

Um bebé preenche-nos de tal forma que apaga todas as neuras. Crónica de Sónia Morais Santos.


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Ter um filho aos 40 corta com qualquer crise de meia-idade que se possa avizinhar. Um bebé preenche-nos de tal forma que apaga todas as neuras


Quando engravidei do Mateus, houve quem nos chamasse loucos. Malucos. Inconscientes. Doidos varridos. Também houve quem nos chamasse de “corajosos”, o que no fundo quer dizer exatamente a mesma coisa, mas com um travozinho a aventura, para disfarçar. Uma tia querida, acreditando que o 4º filho só poderia ter vindo por acidente, proferiu a frase que ficou tipo emblema desta 4ª gravidez: “Olhem, pronto, deixem lá... antes isso que uma doença!”
Acontece que nós desejávamos o Mateus há 2 anos. É certo que sonhávamos mais com uma menina do que com um menino, mas a felicidade em que ficámos quando soubemos que vinha lá um bebé nunca foi ensombrada pelo facto de não ser uma Maria do Mar.

Agora que este 4º filho está à beira de fazer dois anos, só posso dizer que não podíamos estar mais felizes com a decisão de o termos planeado e trazido para a nossa vida.  O Mateus é o nosso bombom. Uma espécie de cereja em cima do bolo incrível que tem sido a nossa vida.

Às vezes perguntam-me como é ter um bebé aos 40. Respondo com a maior sinceridade que tenho cá dentro: é maravilhoso. Toda a gente sabe que aos 40 é possível que se comece a sentir alguma nostalgia do que já passou. Não acontece com todas as pessoas, claro, mas é muito comum falar-se na crise da meia idade. Gente a fazer balanços de vida e a mudar drasticamente algumas coisas: umas pintam o cabelo de loiro,  outras recorrem ao amigo silicone para insuflar a autoestima, há quem se separe em busca das emoções frenéticas da paixão, há quem se despeça do emprego chato para encontrar no empreendedorismo a realização que falta na vida. Há como que uma certa pressa em ser feliz porque, aos 40, surge a angustiante constatação de que, com sorte, metade da vida já passou e, pior do que isso, provavelmente a metade melhor. É depois de se darem conta dessa realidade que muitos desatam a fazer tudo o que ainda não fizeram, antes que já não haja tempo (ou saúde, ou dinheiro, ou condições físicas e mentais) para o fazer.
Ora, ter um filho aos 40 corta com qualquer crise de meia-idade que se possa avizinhar. Um bebé preenche-nos de tal forma que apaga todas as neuras (bom, talvez não todas) que surgem e, por outro lado, traz tanta alegria que não há angústia que vença.

Às vezes, olho para o meu filho Manel, com praticamente 15 anos, e sinto o peso da idade. O peso da idade, o tanas! Sinto-me mesmo velha. Idosa. Caquética. Quando ele olha para mim com aquele ar sobranceiro (não sempre – também era melhor! – mas às vezes) ganho logo umas dores nas cruzes que nem vos passa pela cabeça. Mas, de seguida, chega o bebé enrolando-se nas minhas pernas, a olhar para cima e a pedir colo, dizendo “mamã” com aquela paixão na voz. E então sinto-me renovada. Rejuvenescida. Renascida.
O Mateus é um bebé amoroso, ainda por cima. Está sempre bem disposto,  raramente chateia, é menino para ter cocó até às orelhas e não protestar, ou para estarmos à espera que tempos de lugar num restaurante e ele ter a barriga vazia mas não se queixar. É doce. É meigo. Dá abraços e beijinhos e olha para mim como se eu fosse a única coisa no mundo que realmente interessa. Mais que o sol, que a lua, que as marés, mais que o leite quentinho no biberão.
Não. Ter um filho aos 40 não fez de nós loucos. Malucos. Inconscientes. Doidos varridos. Nem sequer corajosos. Ter um filho aos 40 fez de nós um casal ainda mais feliz, ainda mais completo, ainda mais de bem com a vida. Tudo o resto são loucuras de quem não sabe o que diz.


Crónica da revista P&F/setembro de 2016


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