O balanço dos quarenta e picos

Os quarenta são propícios a um certo balanço que tem o seu quê de doloroso. Crónica de Sónia Morais Santos.


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Detemo-nos numa caixa de fotografias antigas que nos exibem de pele esticadinha e olhar inocente ao lado do nosso amigo que já não existe, e de repente é como se parte de nós partisse.

Há dias em que se sente o tempo a passar como se ele avançasse a uma velocidade superior à que efetivamente avança. Não é sempre, claro, caso contrário sentir- -nos-íamos centenários aos 30. Mas há dias em que a voragem dos anos desperta ao mesmo tempo que nós, e o corpo recusa erguer-se da cama, pesadíssimo, como se todas as coisas que vivemos ao longo da nossa existência se tivessem convertido em peso concreto nos nossos ossos.
De repente cruzamo-nos com o filho mais velho no corredor e não compreendemos de imediato quem é o matulão de boxers que nos sussurra um “bom dia” ensonado. Como raio foi que ele ganhou aquele tamanho? Engolimos em seco. Não tarda este pira-se. E a seguir serão os outros, até chegar o tal momento em que o ninho fica vazio, credo, ainda ontem isso parecia uma espécie de conversa de velho e agora eis-nos a pensar no assunto.

Os quarenta são propícios a um certo balanço que tem o seu quê de doloroso. Os nossos pais envelhecem como se também isso fosse uma ocorrência súbita – de onde vieram aquelas rugas todas e o ar cansado?

Um dia recebemos um telefonema que nos tira o chão: morreu um amigo de infância e adolescência, com um cancro maldito. É como um raio que chegasse para nos fulminar. Como assim, morreu? E detemo-nos numa caixa de fotografias antigas que nos exibem de pele esticadinha e olhar inocente ao lado do nosso amigo que já não existe (como assim já não existe?), e de repente é como se parte de nós partisse também.

A morte, que durante anos pareceu um fenómeno distante, acerca-se. Há muitas notícias de doenças fatais a atingir pessoas demasiado próximas, e é como se tivéssemos pela primeira vez o vislumbre da nossa própria finitude: caneco, um dia destes sou eu.

Acho que deve ser por isso que muitas pessoas acabam com casamentos, aos quarenta e picos. Esta espécie de epifania sobre o nosso prazo de validade deve acordar muita gente para a vida. E se por acaso, no balanço típico dos quarenta, descobrem uma certa infelicidade conjugal... pumbas. Trata de resolvê-la, partir para outra, procurar a felicidade antes que seja tarde demais. Parece-me bem, ainda que não seja despicienda uma análise interior bastante profunda, não vá mudar-se de companheiro e, afinal, o mal ser bastante mais interior do que exterior, mais centrado no “eu” do que no “outro”.

Por aqui os quarenta e picos também passam por um certo peso, uma certa angústia, uma certa vontade de que o tempo comece a caminhar ao invés de correr. Mas para evitar que a cabeça dê o nó, acho que é mais útil focarmo-nos no exercício (não há como as endorfinas para acalmar monas inquietas), aproveitar melhor os miúdos antes que se transformem em graúdos, cultivar as amizades verdadeiras, e principalmente... sair com a pessoa com quem queremos passar o resto da vida, namorar, planear viagens e dias a dois. Porque, se tivermos a sorte de chegar a envelhecer, seremos nós a aturar-nos um ao outro. É bom que continuemos a gostar sempre de o fazer.

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