Os filhos que se esgueiram da nossa asa

Fico a vê-lo atravessar a estrada, com as calças a escorregarem-lhe rabo abaixo e andar gingão e sinto uma imensa vontade de chorar


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Fico a vê-lo atravessar a estrada, com as calças a escorregarem-lhe rabo abaixo e andar gingão e sinto uma imensa vontade de chorar

Já aqui tinha escrito sobre o meu então pré-adolescente filho e como isso (da pré-adolescência) me fazia doer o lombo. Mas, nessa altura, a coisa ainda era tão suave e meiguinha que nem sei bem do que me queixava. Mariquinhas! Agora, sim, a coisa rebentou em todo o seu esplendor. É uma espécie de primavera, no que tem de novidade exuberante e hormonas aos saltos, mas sem a parte das flores, da alegria e dos passarinhos a cantar.
O meu filho Manel tem 12 anos. Sim, eu sei que isto é só o princípio (qualquer dia, quando ele tiver uns 16, escreverei uma crónica a chamar-me mariquinhas por este texto). Mas, como em tudo, o pior é começar. E uma mãe está preparada para muita coisa mas para ver um filho tornar-se um galaró com pelo na venta ainda não existem cursos – e está mal. Lembro-me muito bem de ter frequentado workshops gratuitos sobre como lidar com os pequenos terroristas. O cursinho ensinava-nos a dar-lhes banho, a vesti-los, a afastar os detergentes das suas mãos curiosas e a tapar as tomadas. Aquilo parecia desafiante e assustador! E depois vieram as cólicas e os choros e as birras e as febres. Mas, mal ou bem, uma mãe parece vir preparada para isso. Às vezes fica à toa, tem crises de nervos, pragueja e desespera, mas há sempre um momento em que o bebé dorme e é lindo, há sempre o instante em que aquela mãozinha sapuda se encosta no seu pescoço e tudo passa. Mas aos 12 anos são raros os momentos de ternura que apazigúem um coração.
O Manel tem um linguajar próprio e diz frases inteiras que nós não entendemos. São coisas lá do grupo de amigos, necessárias para o sentimento de pertença, mas aqui em casa parece-se com um alien com dificuldades de adaptação. Goza com o irmão, sente-se superior aos restantes mortais, começa a sentir a vertigem de pisar o risco. Continua a ser bom aluno mas, por vezes, recebo recados sobre o seu mau comportamento. Nada de muito grave (o rapaz não grafita as paredes da escola nem incendeia cadeiras), mas respostas menos simpáticas aos professores e uma certa tendência para não respeitar as hierarquias (tendência em que, tenho de confessar, me reconheço).
Não é fácil lidar com um adolescente, por muito que a gente se lembre que também foi adolescente (e um dos difíceis). Porque é preciso pôr ordem na casa mas também não dá para estar sempre aos gritos. É importante definir que limites não podem ser ultrapassados, mas saber dosear o número e a intensidade dos ralhetes para que não se tornem tão comuns que já nem produzam efeito, quando for mesmo preciso. É preciso pô-lo em sentido algumas vezes, porque apesar de ter sido sempre responsável, tem agora uma certa tendência para esquecer o estudo e dedicar-se à conversa, à música ou ao sono.
O Manel tem 12 anos e, quando o vejo sair do carro para entrar na escola, fico a olhá-lo e sinto que houve aqui um salto tão repentino que, às vezes, parece que nem o reconheço. Com a sua voz grossa, a atirar um “adeus, mãe”, todo cheio de certezas e preocupações capilares. “Então e o meu beijo?”, pergunto envergonhada por ter chegado a isto de mendigar afetos. Ele sorri e estica a cara, entre o displicente e o divertido, “beijinho, mãe”, como quem estende a moeda a um arrumador. Fico a vê-lo atravessar a estrada, com as calças a escorregarem-lhe rabo abaixo e andar gingão e sinto uma imensa vontade de chorar. Geralmente... choro até casa. Quando chego, já passou.
Não é mau ter um filho grande. É bom. Rir das suas piadas, ouvi-lo rir-se das nossas, mesmo quando são muito subtis ou políticas. Escutarmos a mesma música. Conversar de assuntos sérios. Perceber que tem opiniões e não se incomoda muito que sejam distintas das nossas. É bom ter um filho grande e começar a perceber que o nosso trabalho começa a ver-se nas pequenas coisas, mesmo quando parecem estar escondidas pelo enorme turbilhão da adolescência. Mas a mim custa-me. Sei que é um caminho sem volta, que o levará, cada vez mais, para longe de mim, para uma vida autónoma, para decisões próprias (boas ou más), para o fim deste lado mais aconchegante da maternidade, que é o de os ter aqui, debaixo da nossa asa. É preciso ter força. No meu caso, é preciso ter força três vezes. Porque não tarda é o Martim a levantar a crista. E quando ainda estiver a recuperar... será a Madalena.


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