Um filho que come demais

Controlar um filho que come como gente grande é uma dura tarefa. Dizer 'não' nesta matéria é tão importante como dizer 'não' nas outras, como 'não' dizer palavrões, 'não' cantar à mesa, 'não' falar com estranhos. Caso contrário, é ver as crianças pequenos texugos gozados pelos colegas e, pior ainda, a crescerem sem saúde.


alt


Controlar um filho que come como gente grande é uma dura tarefa. Dizer 'não' nesta matéria é tão importante como dizer 'não' nas outras, como 'não' dizer palavrões, 'não' cantar à mesa, 'não' falar com estranhos. Caso contrário, é ver as crianças pequenos texugos gozados pelos colegas e, pior ainda, a crescerem sem saúde.


Ter um filho que não come é um martírio. Sei do que falo porque a Madalena deu-me uma amostra disso, num tempo que, felizmente, já lá vai. Mesmo sendo a terceira filha, dei comigo a desesperar. Ela de boca fechada, choro desesperado perante a tigela da sopa, esgares de vómito. Eu, furiosa com ela, a forçar a colher na sua boca feita fortaleza, vociferando ameaças inúteis. Não foi bonito. E acabou em desistência minha, apoiada pelo pediatra. Não vale a pena insistir quando um filho fica 36 horas sem comer, só para não ter de engolir a sopa. Não vale a pena prosseguir com vomitado, com as paredes cuspidas de sopa, com vermelhidões na boca provocadas pela colher a compelir a entrada. Mais vale desistir e dar legumes de outro modo, lado a lado com o peixe e com a carne, do que continuar com uma guerra que pode ter danos colaterais que se perpetuem vida fora.

Ter um filho que não come é um martírio, eu sei. Mas ter um filho que come demais também não é fácil. E eu também sei. Os avós acham uma beleza, ah que maravilha, até dá gosto ver comer assim, que maravilha, sim senhor. Pois. Mas controlar um filho que come como gente grande é uma dura tarefa. Dura mas essencial. Dizer 'não' nesta matéria é tão importante como dizer 'não' nas outras, como 'não' dizer palavrões, 'não' cantar à mesa, 'não' falar com estranhos. Caso contrário, é ver as crianças a insuflar como peixes-balão, pequenos texugos gozados pelos colegas e, pior ainda, miúdos a crescerem sem saúde.

Tudo isto é verdade mas, nos dias que correm, é um verdadeiro desafio para qualquer progenitor que se preze. Passo a explicar: os meus rapazes pedem um lanche para comerem a meio da manhã. Muito bem. Segue uma peça de fruta numa caixinha. No regresso a casa, o protesto: que os amigos é que têm sorte, que comem Bolycaos e similares, que também gostavam muito, vá lá, mãe, vá lá. No outro dia, o mais novo até pediu que lhe mandasse um pão com salsichas! Para comer a meio da manhã? Oh, valha-me Deus.

Além do prazer que lhes dá um miminho doce, é incrivelmente mais fácil pegar num desses bolos já devidamente empacotados e despachar o assunto, numa manhã apressada. E o que dizer de uma mãe que faz bolos para eles e para os amiguinhos da vizinhança? Só pode ser uma mãe que ganha pontos. De resto, quando escrevem textos sobre mim, os meus filhos falam quase sempre do meu bolo de iogurte, e do arroz doce, e dos brigadeiros. Tudo muito lindo. O pior é o tal controle, que é necessário para não se criar crianças obesas. Como sempre, o equilíbrio é o mais difícil de conseguir.

Tenho sido capaz de o fazer, umas vezes melhor, outras menos bem. Mas este ano tive um inimigo feroz: a cantina da escola. Com a passagem para o 5º ano, o Manel passou a ter acesso a uma cantina recheada de tudo o que de deliciosamente calórico se possa imaginar. Eu, que andei no mesmo colégio, sei bem o prazer que me deu ter acesso àquele pequeno pedaço de paraíso. Se não há lá coisas saudáveis? É capaz... mas qual é o miúdo que escolhe um iogurte natural se puder escolher um folhado com doce de ovo? Já sei, já sei: há imensos miúdos virtuosos por aí. Preservem-nos! O meu optará sempre pelo açúcar.

E foi assim que, no outro dia, íamos tendo um pequeno enfarte, ao vermos no site do colégio a listagem-maravilha daquilo que o nosso primogénito andava a devorar nos intervalos. Rebuçados, bolos, batatas fritas. Mais bolos, pães com chouriço, chocolates, gelados. Um verdadeiro fartar vilanagem. Claro que a comezaina não ficou sem uma reprimenda vigorosa. Que era daí, então, que vinha aquela barriga, que não podia ser, que a saúde saía prejudicada, que jamais seria um bom jogador de futebol se fosse gordo (o mais eficaz de todos os argumentos). E, por fim, a ameaça de represálias mais sérias, caso os banquetes prosseguissem. Certo é que a brincadeira (e o fim dos jogos de futebol no condomínio, porque chegou o frio, a chuva e as noites precoces) fez com que, só neste primeiro período, o rapaz tivesse saltado do percentil 50 para o 75, no peso. Por isso, nos próximos tempos, aqui a mãezinha vai cozinhar diligentemente brócolos, cenouras e espinafres. E voltar aos passeios de bicicleta, sempre que a meteorologia permita. E insistir no 'não', tão necessário. A bem da saúde deles.


Crónica escrita para a revista Pais&filhos de janeiro de 2012.



Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

Prazeres simples

alt

A felicidade está na moda. É tema de livros e dissertações, mote de fotografias e exposições. E receitas não...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais