Ser melhor mãe... a brincar

Gostava de me sentar no chão contente, a brincar às mães e aos pais, a fazer corridas de carrinhos...


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Se há coisa que invejo nesta vida são os pais que gostam de brincar com os filhos. Mas que  gostam mesmo, genuinamente, assim com paixão desmesurada. Eu gostava de gostar. A sério. Gostava de me sentar no chão, contente, a brincar às mães e aos pais, a fazer corridas de carrinhos, a vestir e a despir bonecas, a fazer cozinhados de faz-de-conta, a pentear póneis. Desgraçadamente, não é o que acontece. Sento-me no chão, é certo, mas faço um frete bestial.

A esta altura já há mães a benzerem-se, ai Jesus como é possível uma mãe assim? Pois é. Isto há de tudo nesta vida. E eu perdi, algures no processo de crescimento, o gosto pelas brincadeiras. E se consegui ir escapando porque os rapazes só queriam jogar à bola (e o pai alinhava alegremente) ou fazer jogos de Playstation (e aí alinho alegremente) ou puzzles (também gosto) ou porque gostavam de brincar sozinhos ou um com o outro... com a Madalena a coisa pia mais fino. A criaturinha recusa-se a brincar sozinha e eu sou sempre chamada para a linha da frente. Ela é Nancys, ela é Barbies, ela é cozinhas, ela é bebés, ela é todo um mundo novo cansativo e entediante. Se eu não brinco? Brinco, pois, que ser mãe também é isso. Mas preferia fazer um milhão de outras coisas, para dizer a verdade.

Posso estar a cometer uma injustiça brutal, mas a verdade verdadeira é que não me lembro nada da minha mãe a brincar comigo. Lembro-me de passar horas no meu quarto, sozinha, entretida com bonecos e legos, lembro-me de brincar aos locutores de rádio, lembro-me de me juntar com vizinhos e fazer jornais que depois vendíamos na rua. Lembro-me muito bem de estar na minha vidinha, revestir a varanda de cobertores e ter ali uma casinha, lembro-me de ser feliz no meu mundo e de não precisar que a minha mãe viesse ajudar-me nas brincadeiras.

A Madalena não. Odeia estar só. Talvez porque já tenha nascido neste caldo maluco onde pulula tanta gente, talvez porque nunca consegue estar mesmo sozinha porque há sempre alguém em casa, há sempre um irmão por perto, a verdade é que até para ir à casa de banho precisa de acompanhante. E brincar sozinha está, por isso, fora de questão. Por isso, estou sempre a ser arrastada para o seu quarto. Geralmente tento convencê-la a pintar. No outro dia, porém, fui eu quem propôs uma brincadeira com os

Nenucos. Ela até pode ter achado estranho tanto voluntarismo mas há-de ter preferido não demonstrar espanto e assentiu logo, toda contente. E porque é que me deu para brincar às mães e aos pais? Bom, porque de há uns tempos para cá que noto

que pequena Madalena, nos raros momentos em que decide brincar sozinha, pega nos bonecos à bruta, grita com eles

(grita muito com eles), põe-os de castigo. Aquilo andava a fazer-me uma impressão dos diabos: mas por que raio se comporta ela assim com os seus bebés? Será que eu grito assim tanto com ela e isto é uma mimese pura da vida real? Será que eu sou assim? Medo!

Discuti o assunto com o Ricardo que, a rir e só para me irritar, disse que era óbvio que ela copiava o que conhecia.

Falei com a minha mãe que explicou que as amiguinhas do café brincam assim e ela havia de estar apenas a reproduzir o que via. Até fui às minhas bíblias, os livros escritos pelo pediatra Mário Cordeiro, para tentar perceber se o problema era dela ou se, feitas as contas, era meu. Foi então que percebi que alguns miúdos canalizam nas brincadeiras alguma raiva acumulada. Precisam de descarregar as tensões e as frustrações e os bonecos servem também para isso. Com efeito, a caçula da família está no fim da “cadeia alimentar”. Há quatro pessoas mais velhas que ela cá em casa e todos, cada um à sua maneira, “mandam” nela. Ora, nada como um boneco para sofrer as represálias de tanta autoridade mal engolida.

Ainda assim, não descansei enquanto não lhe mostrei como tratar dos seus “filhos”. Peguei ao colo num bebé-careca, com toda a suavidade, despi-o, fingi que lhe dava um banho ao mesmo tempo que cantava, sequei-o, tornei a vesti-lo, pu-lo a comer. Depois, li-lhe uma história e aconcheguei-o na sua caminha. Dei-lhe um beijo de boa noite. Tudo perante o olhar enternecido da Madalena. “Vês? É assim que tratamos os bebés...” E, de caminho, tenho evitado gritar na vida de todos os dias. Afinal... até a brincar se aprende a ser melhor mãe.

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