Primeiros Voos


Por quanto mais tempo durará esta relação boa que temos, eu e os meus filhos? 


 

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Por quanto mais tempo durará esta relação boa que temos, eu e os meus filhos? Quando principiará a fase em que tudo o que digo vale zero, tudo o que faço é patético, tudo o que sou é errado?


Há uma pergunta insidiosa que insiste em não me largar: por quanto mais tempo durará esta relação boa que temos, eu e os meus filhos? E, atrás dessa, outras do mesmo tipo: quando começarão a desdenhar de mim, a querer ver-me muito mais pelas costas do que pela frente, quando sentirão embaraço nos nossos beijos e abraços? Quando principiará a fase em que tudo o que digo vale zero, tudo o que faço é patético, tudo o que sou é errado? Há quem aposte, no que toca ao Manel (faz 10 anos em novembro), em mais dois anos de paz e cumplicidade. Depois disso, asseguram alguns, tudo mudará para sempre. E, claro, o meu coração encolhe. Até porque, a ser assim inevitável este virar de costas, esperam-me três desgostos, um de cada vez.

Será que tem mesmo de ser assim? Eu percebo a fase da adolescência e o corte umbilical e coiso e tal, mas desejo ardentemente que seja o mais suave possível. Quando vejo pais de mãos dadas e aos carinhos com miúdos de 15 anos tenho sempre vontade de lhes perguntar como foi que conseguiram tamanho milagre, qual foi o segredo para a sã convivência com os benditos púberes, e se fazem o favor de me dar umas aulas, que eu estou disposta a pagar.

Até que esse doloroso dia do corte chegue vou continuar a fazer como a avestruz e fingir que nada disso se vai passar. Que o Manel vai continuar a deixar-me apertá-lo, que o Martim vai gostar sempre da pergunta «Quem ama tu?», que a Madalena vai ser toda a vida esta dengosa que deita a cabeça no meu ombro e pede miminhos e pestaneja como uma diva. A fingir e a aproveitar cada momento, como se fosse o último (sim, é dramático mas muito útil).

Estas férias foram, como sempre, uma boa altura para estar pertinho deles e, ao mesmo tempo, deixá-los começar a voar baixinho. No hotel onde ficámos pelo segundo ano, o Kids club é tão bom, mas tão bom que o difícil é tirá-los de lá para estarem um bocadinho connosco (lá está), mas foi possível conciliar tudo. A Mada sempre colada a nós (ainda não tem idade para ir para o clube), os dois rapazes na vida deles, arranjando a custo um buraquinho na agenda para nos fazerem companhia. Este ano até romance houve nas férias, prova provada de que eles estão mesmo a crescer e a ganhar asas. Foi uma delícia (pelo menos para já) assistir aos encontros dos dois enamorados, aos passeios românticos de gaivota, aos risinhos cúmplices, à troca de olhares entre nós, os pais do mocinho, e eles, os pais da mocinha. Os amores de verão fazem bem ao coração. Ao deles e ao nosso.

O regresso a casa teve, também, desenvolvimentos ao nível das asas que eles querem ter e que nós, os pais, temos de lhes saber dar ou recusar, conforme a pertinência e o bom senso. Por um lado, a semanada. Até aqui o Manel não recebia dinheiro. Achávamos que era cedo para isso e que lhe dávamos tudo o que precisava, dentro das nossas possibilidades. Mas agora que passou para o 5º ano estamos convictos de que será bom para ele fazer a gestão do seu orçamento: perceber que se gasta tudo depois não tem para o que gostava mais de comprar, conhecer o preço das coisas, poupar para ter algo mais caro. Andámos em conversações sobre o valor a dar-lhe. Não queríamos que fosse ridiculamente pouco, nem que fosse demais para a sua idade. Decidimo-nos pelos 8€ por semana. Ele ficou todo contente e guardou uma parte na carteira e o resto no mealheiro. Depois, perguntou: «Agora quando formos a um restaurante eu tenho de pagar a minha parte?»

O outro pedido está em suspenso e em discussão. O rapaz quer à força um telemóvel. Nós achamos um disparate. Mas a quantidade de amigos que tem o aparelho aumenta e, proporcionalmente, aumenta a pressão cá em casa. Um telemóvel aos 10 anos será razoável? E os efeitos da radiação num cérebro ainda em desenvolvimento? E os abusos, os telefonemas nas aulas, as mensagens escritas, as conversas que nos escapam do controle, os perigos? As perguntas são muitas e por isso, pelo menos para já, o assunto está pendente.

De maneira que é isto. As asas começam a nascer, naturalmente, e a nós cabe-nos a gestão dos primeiros voos dos nossos pequenos pássaros. O mais difícil, como em tudo, é o equilíbrio: deixá-los voar, sim, mas evitando que se despenhem logo nos primeiros voos. E desejar com muita força que gostem de regressar ao ninho, depois de cada viagem.


Crónica da revista Pais%filhos de outubro de 2011.

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