Medo da morte

Como é que uma ateia, que não acredita em Deus nem em céu nem em inferno nem em vida depois da morte nem em reencarnação nem em coisa pode ajudar um filho com medo tão feroz da morte?


Foi na semana passada: estava eu a ajudar o Manel a estudar, com lágrimas à mistura e os típicos «Eu não consigooo, eu nunca vou conseguirrrr!», entoados como se estivesse para acontecer uma tragédia grega, quando ouvi uma choradeira igualmente dramática, vinda do quarto. Ui, que bom, hoje temos teatro em dois actos!, pensei. Deixei o Manel e fui ver o que se passava no outro lado da casa. O Martim estava num pranto, abraçado ao pai, que revirava os olhos e mordia o lábio como que a dizer: agora é que estamos feitos. O assunto, pelos vistos, era sério.

E era. O Martim falava de morte, um tema que não assimila nem por nada. Pode parecer meio chalupa que uma criança tão pequena se ponha com conversas filosóficas sobre a vida e a morte, num desespero precoce que não é para a sua idade. É verdade. Mas também não acontece assim tantas vezes, caso contrário lá ia eu ter com a psicóloga Teresa Lobato Faria, minha salvadora para todas as questões infantis que não sei resolver. Porém, de vez em quando, o Martim lembra-se que há um dia em que a gente morre. E aí chora. E desespera. E, com ele, também nós desesperamos.

Desta vez foi mais difícil do que costuma ser. Ele chorava, inconsolável, e repetia: «Quando eu morrer nunca mais vejo ninguém… e vou ficar tão sozinho». Ora bem, como é que uma ateia, que não acredita em Deus nem em céu nem em inferno nem em vida depois da morte nem em reencarnação nem em coisa nenhuma (eu sei que isto faz muita confusão a muita gente, mas vá, tenham a humildade de aceitar que há pessoas desgraçadas a quem a fé nunca chegou ao coração, e em vez de apedrejarem rezem por mim e pelo nascimento, milagroso, de uma fé em mim, por mais ínfima que seja), como é que alguém, dizia, que nasceu sem a protecção de uma crença qualquer pode ajudar um filho com medo tão feroz da morte?

Pois bem, a resposta é: dizendo coisas em que não acredita, mas em que gostava muito de acreditar. E assim foi. «Martim, quando nós morremos não ficamos sozinhos. Vamos para o céu e encontramo-nos lá todos outra vez, para uma vida diferente mas feliz.» Não sei se fui muito convincente. Tenho sempre a ideia de que tenho algum talento para a representação, mas a verdade é que não treino há muito tempo. Ele, de quatro lágrimas em cada lado do rosto, prosseguiu: «Mas… como é que nos encontramos no céu, se o céu é tão grande?» Ui – pensei – como é que vais descalçar esta bota agora?

Expliquei então que o céu é muito grande, sim, mas que nos encontramos sempre com aqueles que amamos. Que é assim, e pronto, para ele ficar tranquilo. Mas o Martim não ficou tranquilo: «Como é que tu sabes que é assim, mãe? Tu nunca estiveste no céu!» Ora toma lá, que já almoçaste. «Não estive mas é o que se diz que acontece. E nós temos de acreditar nisso para nos sentirmos melhor, não achas?» Ele parou de soluçar por um instante. E eu aproveitei para lhe pedir que não pensasse mais na morte, que era um acontecimento natural mas que só ocorria quando fôssemos todos muito velhinhos e tão cansados que até agradecíamos um descanso no céu, todo cheio de nuvens frescas e fofinhas.

Ele sorriu, por um nano-segundo. E eu achei que estava a conseguir terminar-lhe com o sofrimento. Engano. Esta ideia hierárquica da morte tem um lado bom, porque chuta para um tempo longínquo o medo da própria extinção mas, por outro lado, traz para perto o medo da perda dos outros, os que estão mais próximos da morte. No caso do Martim, foi isso que aconteceu, mas começou ao contrário: «A mana vai ser a última a morrer e eu vou ter tantas saudades dela…» Choro, choro, choro. E, logo de seguida, caiu-lhe a ficha hierárquica à séria: «Oh! E os avós??? Os avós vão morrer primeiro e eu não vou aguentar! Vou ter tantas saudades deles, mamã! E vou ter de esperar tanto para os encontrar no céu!» Pronto. Aqui já eu estava a disfarçar as minhas próprias lágrimas, porque aqui mexeu directamente com os meus medos e com a minha saudade. Não foi fácil. Tornei a chutar para longe esse dia, que os avós ainda iam viver muito, muito tempo, e que quando chegasse o momento de partirem, iam estar lá no céu a zelar por nós, a fazer com que as coisas nos corressem bem, e que iam viver sempre no nosso coração.

O mais curioso é ser o Martim a ter estes pensamentos. Porque ele parece o mais solto, o mais rufia, aquele que vai ter 5 namoradas ao mesmo tempo e que vai passar semanas sem nos telefonar. O Martim parece viver no seu mundo, autónomo e por vezes distante, mas é tudo mentira. No fundo ele é um menino muito sensível, que sofre com as despedidas e que não consegue interiorizar que, um dia, mais ou menos longínquo, vai ficar sem os que ama. Eu percebo-o perfeitamente. Porque também ainda não o consegui fazer, por mais que tente.

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