Sobre cisternas e fontes

A Educação-fonte não quer colocar água dentro do aluno. Quer é fazer brotar a fonte que mora dentro dele, escondida. Na educação-cisterna o aluno é um buraco vazio sem água.
William Blake foi um poeta inglês a quem aconteciam aforismos. Disse «aconteciam» porque aforismos são como relâmpagos. Acontecem. Iluminam repentinamente o céu vindos não se sabe donde. Como os relâmpagos, com um poder para rachar rochas. Hoje um dos seus relâmpagos aconteceu: «As cisternas contêm; as fontes transbordam.»

«Cisternas» são buracos que se fazem na terra para guardar a água da chuva. São muito úteis em regiões áridas onde a chuva é rara e os rios não correm.

A água que a cisterna contém não brota dela. É um outro que a põe lá.

As fontes são outra coisa. São símbolos de vida. Parodiando o Riobaldo eu digo: «Onde as fontes borbulham tudo é alegria.»

Para se ter uma fonte não é preciso cavar. É a própria água que cava o seu buraco. A terra não consegue conter a sua pressão para sair. É uma erupção vulcânica, a terra ejaculando a vida.

Olhando-se para o fundo de uma fonte através de sua água cristalina a gente vê a areinha a ser lançada para cima pela força da água. A água vai saindo sem parar até que transborda dos limites do seu buraco, transformando-se num filete de água que pode, eventualmente, transformar-se num rio.

Um outro aforismo de Blake dá-nos a chave para decifrar o sentido deste: «O homem que nunca altera suas opiniões é como água parada: gera répteis na sua mente.» Cisterna é um lugar de água parada que pode gerar répteis. A «fonte» é um lugar de águas sempre novas que transbordam.

São metáforas de dois tipos de pessoas. Há pessoas que são «cisternas» e há pessoas que são «fontes».

E são metáforas de dois tipos de educação. Há uma educação cisterna e uma educação-fonte.

A educação cisterna quer encher o buraco chamado aluno com uma água que não brota dele. A educação-fonte não quer colocar água dentro do aluno. Quer é fazer brotar a fonte que mora dentro dele, escondida.

Lembrei-me do Pequeno Príncipe: «O deserto é belo porque em algum lugar ele esconde uma fonte». Uma criança é bela porque dentro dela há uma fonte escondida.

(Toda a gente tem uma fonte. Com frequência essa fonte está enterrada com entulho.)

A educação cisterna não pode repetir o aforismo do Pequeno Príncipe porque, para ela, não há fontes. Tudo são cisternas. Na educação-cisterna o aluno é um buraco vazio sem água.
Seco. O aluno-cisterna tem é de guardar o que o professor despejou dentro dele.

A capacidade que tem o aluno-cisterna de reter água tem o nome de «memória». Há dois tipos de memória: memórias com poros e memórias sem poros.

Diz-se de uma pessoa que retém tudo o que foi posto dentro dela: «Tem boa memória...»: não esquece. A esse tipo de memória faltam os poros do ‘esquecimento’. Incapaz de esquecer, incapaz de deixar a água filtrar para fora, ela retém indiferentemente tanto a água venenosa dos répteis quanto a água cristalina das fontes.

Essas memórias sem poros que jamais esquecem são raríssimas. Aparecem apenas em casos patológicos, os débeis mentais chamados «idiots savants», sábios idiotas, que decoram um livro inteiro com uma só leitura, muito embora nada entendam do que foi memorizado.

Mas a educação-cisterna tem como seu ideal a memória sem poros que não esquece.

Os métodos de avaliação da educação-cisterna restringem-se a medir a água que fi couretida. Se, por acaso, brotou água, se por acaso dentro da cisterna há uma mina, isso não lhe interessa. A sua avaliação se restringe a responder à pergunta: «Da água que foi despejada dentro do aluno, sobrou quanto?»

Aluno bom é cisterna boa: guarda a água que o professor despejou dentro dele. Aluno ruim é aluno que deixa escorrer, através dos poros do esquecimento, a água que o professor pôs dentro dele.

Desses pressupostos deduz-se o que é «aprendizagem». O aprendido é a água que ficou retida na cisterna. Assim, o «aprendido» pelo aluno é sempre igual ou menor que o sabido pelo professor.

«Provas» têm por objectivo medir a água que ficou. Preparar-se para uma prova é repor a água que o esquecimento filtrou. Por isso seus resultados são sempre falsos. Medir o tanto de água que restou numa cisterna logo depois dela ter sido reenchida só pode produzir resultados mentirosos. A memória esquece não por ser fraca mas por ser sábia. A palavra sábio, em Latim, quer dizer «eu degusto». Degustar é discriminar entre o que é gostoso e o que não é gostoso. O gostoso, o corpo come e incorpora. O que não é gostoso o corpo rejeita: o bebé cospe, o adulto vomita. A memória livra-se do que foi reprovado pelo teste de degustação por meio do esquecimento. É preciso esquecer o que foi reprovado pelo teste da degustação para não adoecer.

O mesmo William Blake advertiu: «Espere veneno de água parada…» Muitas pessoas que têm memórias sem furos são perfeitos idiotas. Na educação-fonte o educador cuida das fontes. A água não jorra nem nos mesmos lugares e nem com a mesma força. Mas jorra. Por vezes algum detrito entope o jorro. O educador vai lá e limpa a sujeira para que o jorro continue.

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