Meditação de um poeta

«Quando te vi amei-te já muito  antes.  Tornei a encontrar-te quando te achei.»  Esta é a mais bela declaração de amor que conheço. Ela indica o lugar obscuro onde o amor  brota.
* *  *

Ela estava assentada ligeiramente inclinada para frente, as mãos apoiadas sobre as coxas. Olhou-o com olhos  tranquilos e com voz baixa disse: «Meu nome é  Heloisa». Tinha maçãs salientes e um rosto de menina. Uma beleza singela e despida, sem nenhum adorno, irradiava do seu corpo.
Ao vê-la ele sentiu uma súbita alteração no seu peito, coisa que nunca havia sentido. Percebeu que estava perdido. Ele a amou para sempre desde o momento em que a viu.
* *  *

Faz muito que tento entender essa cena. Embora saiba que a razão lógica não conhece as razões do coração, embora Drummond tenha escrito  um poema com o título «As Sem Razões do Amor», embora o próprio Santo Agostinho não soubesse o que ele amava quando amava, sou fascinado pelo mistério desse súbito encantamento.    Qual é a origem desse sentimento que fisicamente comprime o lado esquerdo do seu peito?

*  *  *
O poeta  fala: «Quando te vi... Eu nunca a havia visto. Não havia antecedentes que tivessem preparado aquele momento. Nada sabia sobre ela. Dela, a única coisa que eu tinha era a sua imagem: eu a vi... Meus olhos pararam sobre o seu rosto e o tocaram imperceptivelmente com  dedos de luz.    Amei-a com os meus olhos.
Eu já havia visto muitas mulheres. Muitas delas mais bonitas. Não a amei por ser  mais bonita que as outras.  Não é a beleza que produz  o encantamento.  Se o amor fosse produzido pela beleza eu teria me apaixonado por muitas mulheres.

Então, o que foi que me enfeitiçou? Não sei. Amei sem saber por que. Faço a mesma pergunta que  Santo Agostinho fez: «O que é que amo quando te amo? O que foi que amei quando a vi?»

*  *  *

«Quando te vi amei-te já muito antes...»  - a  estranha forma sintática do verso  nos leva para a região onde se encontram as fontes da paixão: um outro mundo, um tempo anterior ao agora.
Os poetas têm intuições desse tempo. Talvez porque eles mesmos não saibam explicar os seus poemas cuja origem é tão misteriosa quanto a origem do amor. De onde eles vem?
Fernando Pessoa se perguntava: «Quem sabe, quem sabe, se não parti outrora, antes de mim, de uma outra espécie de porto?» É possível que a imagem que encanta tenha nascido  no mesmo tempo e no mesmo lugar onde nascem  os poemas...
«Nasci para ti antes de haver o mundo. Não há cousa feliz ou hora alegre que eu tenha tido pela vida fora, que não fosse porque te previa... «Tornei a achar-te quando de encontrei...»
«Antes de nascer tu eras minha. Quando nasci, perdi-te. E agora, você à minha frente, sua imagem me levou para esse passado misterioso onde éramos um do outro num amor imperturbável.»
As razões do encantamento se encontram nesse tempo anterior. Era lá que ela vivia  adormecida  Eu não a via. Estava invisível nas brumas. Mas ouvi a sua respiração.  Antes que eu a houvesse visto naquele momento encantado  presente eu já a desde um passado imemorial.
A experiência do amor – quem sabe a palavra mais certa seria paixão  - existe dentro dessa bolha encantada, fechada sobre si mesma,  que subitamente nos extrai do presente. É uma emoção em estado bruto, irresistível  que se apossa da alma,  a domina e se basta. «O nosso amor vai ser assim, eu pra você, você pra mim.» Quem escreveu esses versos sabia que a bolha da paixão é feita por dois olhares  que se contemplam encantados e se fecham sobre si mesmos.

Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

Prazeres simples

alt

A felicidade está na moda. É tema de livros e dissertações, mote de fotografias e exposições. E receitas não...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais