Os três Reis

A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, convivendo com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido. Era só isso. Nada mais.

Eram  três reis, cada um vindo de um reino diferente, um nada sabendo sobre os outros, numa viagem absurda com que jamais haviam sonhado, caminhando na direcção de uma estrela que só eles viam. Era certo que eles estavam loucos...
Gaspar  navegara do norte em seu navio, velas enfunadas por uma brisa fresca e constante e agora, pés na terra, caminhava... Balt-hazar viera do sul em seu cavalo, por caminhos que cortavam matas verdejantes. Mélek-hor viera do oeste, em seu camelo, atravessando desertos com areias escaldantes.
Viajaram por muito tempo. E depois de muito viajar chegaram a uma encruzilhada. Nela  se cruzavam os quatro caminhos do mundo: o caminho do norte, o caminho do sul, o caminho do oeste e um quarto caminho... Olhando na direcção do quarto caminho podia-se ver, no horizonte, uma estrela brilhante...
Havia ali, no meio da encruzilhada, uma estalagem chamada «Os quatro caminhos do mundo». Foi nela que os três reis se encontraram. À noite sentaram-se à volta de uma mesa para comer: pão, queijo, frutas secas, vinho. E começaram a contar suas estórias. À medida que cada um deles falava os outros se enchiam de espanto.
Que absurda coincidência! Como era isso possível? Que sendo três desconhecidos, vindos de três cantos do mundo, as suas estórias fossem a mesma estória! Todos haviam sofrido a mesma nostalgia. Todos haviam visto a estrela que ninguém mais vira. Todos haviam ouvido uma estranha melodia que os chamava... Descobriram, então, que eram companheiros. E resolveram que dali para frente viajariam juntos.
E assim foi. Por vários dias caminharam... Aconteceu então que, noite já escura,  chegaram a um minúsculo vilarejo. «Que vilarejo será esse?», perguntaram. Gravado numa pedra estava o seu nome: «Beth-léhem». «Estranho», disse o erudito Gaspar: «Aprendi tudo o que há para ser aprendido sobre reinos, províncias, cidades e vilas. Mas nunca vi esse nome em qualquer um dos livros que li».
Mélek-hor acendeu sua lâmpada de azeite e iluminou, com sua luz bruxoleante, o mapa que abrira sobre o chão. «Aqui está ela», ele disse marcando com o seu dedo um lugar no mapa. «Beth-léhem. Fica precisamente na divisa entre dois grandes reinos. À esquerda está o Reino da Fantasia. À direita está o Reino da Realidade.»
«Já li sobre esses dois reinos nos livros sagrados», disse Balt-hazar. São reinos perigosos. Aqueles que vivem no Reino da Fantasia ficam loucos.  E aqueles que vivem no Reino da Realidade ficam loucos também, loucos de outra espécie: eles perdem a capacidade de sentir a beleza... Somente se salvam da loucura aqueles que vivem na fronteira entre os dois reinos. Esses ficam sábios e se tornam artistas. Pois Beth-léhem está precisamente na divisa entre o Reino da Fantasia e o Reino da Realidade...»
No vilarejo todos dormiam. O ar estava perfumado com flores de jasmim e magnólia. E havia um brilho no ar – milhares, milhões de vaga-lumes pousados nas árvores. Ovelhas baliam ao longe, enquanto o seu pastor tocava uma flauta... Era uma noite de paz.
A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, convivendo com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido. Era só isso. Nada mais.
Perceberam, então, que haviam se enganado: não era a estrela que iluminava a cena. Era o nenezinho que iluminava a estrela. E olhando bem puderam ver  nela reflectido como num espelho, o rosto da criancinha.
Aí entenderam. Deixaram de ser reis e se transformaram em sábios. Compreenderam o grande segredo:  «O universo é um berço onde uma criança dorme!»
Notaram, então, que uma coisa estranha acontecia quando olhavam para o nenezinho: eles perdiam a sua compostura real e eram dominados por uma vontade incontrolável de rir. E quando riam, ficavam leves e começavam a flutuar. Era assim: quem visse o menino se transformava numa criatura alada...
Os reis, meio aos risos e em vôos, olharam cada um para o outro e disseram: «Nossa busca chegou ao fim. Encontramos a alegria. Para se ter alegria é preciso voltar a ser criança...»
Acto contínuo tomaram suas coroas, capas de veludo, dinheiro, ouro, jóias – pesadas coisas de adulto – e as depuseram no chão, ao lado das vacas e dos burros... Partiram leves, ora andando, ora pulando, ora voando, mas sempre rindo.
«Vou mudar de vida», disse Gaspar. «É horrível ter de estar estudando ciência o tempo todo, como fiz até agora. Vou me transformar em poeta...»
«Eu também vou mudar de vida», disse Balt-hazar. «Rezar o tempo todo, como tenho feito, é muito cansativo. Vou ser palhaço. O riso é também é  oração…»
Ao que Mélek-hor acrescentou: «E eu descobri o prazer supremo de brincar. Vou ser um fabricante de brinquedos. Quem brinca volta a ser criança. E quem volta a ser criança está de volta ao Paraíso.»
E assim partiram, cada um por um caminho. E se você, nas suas andanças, se encontrar com um poeta, um palhaço ou um fabricante de brinquedos, pergunte se ele não tem notícias de uns três reis.

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