Culpa: rói por dentro, sente-se por fora

Quando os remorsos se aplicam ao tempo que passamos com os filhos... a culpa ganha dimensões de dilúvio.


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Quando os remorsos se aplicam ao tempo que passamos com os filhos – entre o que queremos, o que eles exigem e o que é possível para nós –, a culpa ganha dimensões de dilúvio


Prometes que vens cedo?” Tinha acabado de vestir o bibe à minha filha mais velha e ela ia entrar na sala do jardim de infância depois de eu lhe dizer que nesse dia era eu que as iria buscar. E que iria cedo, para termos tempo para brincadeiras e televisão antes do banho e do jantar, hora a que a mãe deveria chegar a casa. Habitualmente é o pai que leva de manhã, a mãe vai buscar à tarde, o trabalho e os horários assim ditam. Mas, naquele dia, o pai não só iria buscar como teria de o fazer mais cedo.

Não foi ela que mo pediu. Fui eu que, cansado de tantos dias a chegar em cima do jantar, cansado de algumas noites em que nem as vejo, cansado de um ou outro fim-de-semana em que estou fora em trabalho, cansado de querer concentrar em meia hora o que não pude usufruir em duas ou três... cansado de tudo isso mas, sobretudo, com tudo isto enrolado num grande novelo de remorsos, resolvi dizer naquele dia o que andava há uma série de tempo a ameaçar: “De hoje não passa.”

A culpa é uma tempestade tramada. Devia desempenhar um papel regulador importante nas nossas ações, para acionar um mecanismo de compensação a que temos de recorrer quando estamos em falta ou depois de termos feito asneira. Mas quando se aplica ao tempo que passamos com os filhos – entre o que queremos, o que eles exigem e o que é possível para nós –, a culpa ganha dimensões de dilúvio. Às vezes falo com outros pais sobre isto e fico mais descansado por pensar que não sou o único a sofrer com isto – ou a divagar, quando penso que um dia gostava de atirar tudo às urtigas para me dedicar a ver as minhas filhas crescer.

Curiosamente, este remorso cabe nas nossas cabeças e nos nossos corações mas parece não encaixar bem nas nossas estatísticas. Um estudo da Universidade da Califórnia (Irvine) revelado este ano conclui que os pais passam hoje muito mais tempo com os seus filhos do que na década de 1960. Em 1965, as mães passavam uma media diária de 54 minutos com os filhos. Em 2012 esse tempo aumentou para 104 minutos. Para os homens, então, o passo foi de gigante: dos 16 minutos diários que dedicavam aos filhos pequenos em 1965, passamos para 59 minutos.
O estudo baseou-se nos registos de 68.532 homens e 53.739 mulheres com filhos menores de 13 anos, recolhidos ao longo de quase meio século em 11 países ocidentais (Portugal não é um deles, mas Espanha e França estão lá) e inclui tarefas como mudar fraldas, preparar refeições, alimentar, dar banho, adormecer, acordar de noite para os acalmar, ficar com eles quando estão doentes, brincar ou ajudar com os trabalhos de casa.

E o que tem isto a ver com a culpa que eu tenho por não passar tanto tempo com as minhas filhas como gostaria? Bom, quero pensar que o facto de eu ser um tipo insatisfeito devia fazer de mim um melhor pai.  E que aquela hora e um quarto diárias que o estudo diz que eu passo com as minhas filhas – no caso dos homens com cursos superiores, a média é de 74 minutos, ao passo que nas mulheres passa para 123 – é o tempo que eu posso dar, mas tenho vontade de dar mais. Equilibrar as duas coisas é que é o cabo dos trabalhos.
PS: Naquele dia fui buscar as miúdas cedo. E a culpa foi menor.


*Autor do blogue A Farmácia de Serviço (www.afarmaciadeservico.com) e editor executivo da Notícias Magazine, onde assina semanalmente as crónicas “Vida em Comum”.


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