Leiam isto daqui a uns anos, ok?

"Entre o dia em que escrevo e o dia em que vocês lerem isto passarão alguns anos.". Crónica de Paulo Farinha.



alt


Queridas filhas,
Vocês só vão ler isto daqui a uns anos. Várias vezes, talvez. Quando forem adolescentes? Quando estiverem para sair de casa? Quando já estiverem por vossa conta? Quando estiverem para ser mães, se isso estiver nos vossos planos? Quando já tiverem filhos? Seja quando for e quantas vezes for, de cada vez que lerem é possível que acabem a dar interpretações diferentes da anterior. E se lerem isto enquanto eu ando por cá ou lerem depois, quando o vosso pai já tiver partido para outro sítio qualquer (acreditem ou não nisso), também é possível que as sensações sejam diferentes.

Vocês vão sentir isso. À medida que vamos crescendo (a partir de uma certa idade dizemos que vamos ficando mais velhos), vamos dando novos significados e interpretações aos mesmos estímulos. Ora, hoje, quando vos levava para a creche, tive um momento desses. Uma reação diferente a uma mesma coisa. E não porque tenha visto a luz ou tenha tido uma epifania. Foi apenas porque tu, Carolina, minha filha mais velha, me desarmaste.

Vocês não se lembram, eram pequenitas, mas a vossa escola era relativamente perto de nossa casa. Uns 10 ou 15 minutos de carro, dependendo do trânsito e de quantas vezes deixassem cair as bonecas para o chão e eu tivesse de as apanhar, em quatro piscas, com os condutores atrás a buzinar. Esta manhã, não por causa das bonecas, mas por causa de uma bolacha que a Madalena deixou cair e de uma bola pequena da Carolina que se enfiou num sítio onde o meu braço direito não podia chegar ao mesmo tempo que o esquerdo agarrava no volante, vocês desataram a chorar. As duas. Ao mesmo tempo. E o carro no pára-arranca. E eu com sono, porque me deitei tarde a trabalhar. E vocês a chorar. Mais. Mais alto. E as minhas palavras para vos acalmar não estavam a resultar. E o raio da caixa com mais bolachas caiu também. E o sinal verde abriu. E nesse crescendo de cabeça que estamos prestes a perder e da paciência que se está a esgotar à medida que o volume do choro aumenta, preparei-me para dar um berro. Um daqueles que eu dava. Devem lembrar-se. Ia manter-vos em sentido durante dois nanosegundos, depois vocês iriam chorar mais e mais alto, eu ficaria com dor de garganta, mas pelo menos descarregava. Ora, quando tudo isto estava prestes a acontecer, tu disseste aquilo, Carolina. “Não grites, pai. Estamos só a chorar.”

Não sei que raio de cara faço quando estou prestes a dar um berro, mas parece que se topa. E tu topaste. Não serviu para vos acalmar, mas serviu para não vos enervar mais. E para eu ficar com o coração do tamanho de um feijão, no meio de uma das ruas mais movimentadas da cidade, com duas crianças aos gritos dentro de um carro e vontade de puxar o travão de mão, mandar o fulano atrás passar por cima, dar-vos beijos e abraços e dizer-vos que nunca mais ia gritar com vocês. Estamos em abril de 2016. Entre o dia em que escrevo e o dia em que vocês lerem isto passarão alguns anos. Ainda vou gritar com vocês algumas vezes. E vocês comigo. Faz parte. Mas garanto-vos que me vou lembrar sempre do dia em que evitámos que isso acontecesse. E de como isso fez toda a diferença nos não-gritos seguintes.


*Autor do blogue A Farmácia de Serviço (www.afarmaciadeservico.com) e editor executivo da Notícias Magazine, onde assina semanalmente as crónicas “Vida em Comum”.


Leia outras crónica do jornalista Paulo Farinha:

Aleitamento materno: O pai pode falar?

Também podemos ficar aqui na creche?


Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais