Também podemos ficar aqui na creche?

"Deixar um filho na creche é pior do que juntar, no mesmo cocktail de ansiedade, a ida ao dentista para arrancar um siso, o último exame do curso..."


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Deixar um filho na creche é pior do que juntar, no mesmo cocktail de ansiedade, a ida ao dentista para arrancar um siso, o último exame do curso, uma entrevista de emprego ou a espera pelo resultado do teste de gravidez


Não precisam de grandes mochilas. Nem livros. Ou cadernos. Ou estojos. Não têm de levar canetas. O equipamento desportivo será mínimo. Uma com um ano e meio e outra com três anos, as minhas filhas ainda não têm uma extensa lista. Por enquanto, e ao contrário de milhares de pais que estarão a pensar quando serão afixados os horários dos filhos e quando terão tempo para acabar de comprar tudo o que precisam para o início do ano letivo, só temos de nos preocupar com chupetas de reserva, mudas de roupa, fraldas em barda e chapéus para quando forem ao pátio.

Este é o segundo ano das minhas filhas na creche – a mais velha vai para o jardim de infância. Já conhecemos os responsáveis, as rotinas, o modo de funcionamento, a logística. Mas no ano passado, por esta altura, eu estava a tentar perceber como raio ia lidar com essa coisa de entregarmos as nossas filhas, as criaturas-mais-importantes-perfeitas-amadas-inteligentes-delicadas-e-preciosas-do-mundo (ou seja, iguais a todos os outros filhos de todos os outros pais) a pessoas que não conhecemos? Como é que se programa o nosso chip para entrar em modo de “vai ficar tudo bem, relaxa, confia, não sejas control-freak”? Deixar um filho pela primeira vez numa creche é pior do que juntar, no mesmo cocktail, a ida ao dentista para arrancar um siso, o último exame para acabar o curso, daquela cadeira a que chumbamos desde o primeiro ano, a entrevista de emprego para o trabalho de sonho ou a espera pelo resultado do teste de gravidez. Tudo isto, misturado e elevado à décima potência, não chega de perto à ansiedade vivida naqueles primeiros dias, quando vimos embora e continuamos a ouvi- -los a chorar, ao longe. E então, como é que descontraímos?

Não descontraímos. Alguns pais falam entre si e alertam para perguntas a fazer. Outros leem tudo o que podem: livros, revistas, opiniões de psicólogos, pedopsiquiatras e pedagogos. Há quem consulte os blogues de mães e as suas informações úteis e sinais de alarme. Na impossibilidade das câmaras de vigilância na creche, a que podemos aceder via web (é ironia, gente, deixem-se lá de ideias à Big Brother, que isso é doentio), só resta uma possibilidade: deixar o tempo atuar e confiar nas pessoas a quem confiamos os nossos filhos.

Na fase de procura de instituição, tivemos em conta as mensalidades, a proximidade de casa, a qualidade e antiguidade das instalações, se tinham ou não pátio, se as educadoras tinham formação, se eram obsessivos com horários, se a comida era boa, se podíamos entrar quando quiséssemos (desde que respeitássemos a dinâmica de horários). Ah, e se tratavam as crianças todas por “você” – em caso afirmativo, estavam excluídos. Em função disso, escolhemos. Depois veio a adaptação. Os dias de férias que tirámos para acompanhar as miúdas. O horário gradual. O nosso apoio nas refeições – chegámos a ir lá para sermos nós a ajudar. O respeito pelo ritmo delas. Em tudo isso, aquela creche passou nos nossos standards. Mas a prova final só chegou ao fim de uns meses – e não foi em simultâneo para as duas. Só no dia em que as filhas saltaram dos nossos colos para o colo das educadoras e ficaram a rir, enquanto nos faziam um adeus de “vai-te embora e não me chateies” é que sentimos que estavam integradas.


*Autor do blogue A Farmácia de Serviço (www.afarmaciadeservico.com) e editor executivo da Notícias Magazine, onde assina semanalmente as crónicas “Vida em Comum”.


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