Ah, as manhãs, esse mistério da criação

Por favor incluam as manhãs infernais no módulo “coisas que te podem lixar a harmonia familiar ou deixar-te com os nervos em franja” nos cursos de preparação para a parentalidade.


 alt

Por favor incluam as manhãs infernais no módulo “coisas que te podem lixar a harmonia familiar ou deixar-te com os nervos em franja” nos cursos de preparação para a parentalidade.


Um dia chegarão: as saudades dos tempos em que as minhas filhas eram pequenas. O colo, o cheiro dos cremes, os primeiros passos... Até das noites mal dormidas e das peças de lego pisadas descalço – é incrível como um palavrão às três da manhã pode aliviar a dor – eu sei que terei saudades. Mas ainda não estou aí. A mais velha tem quase três anos, a mais nova 16 meses. O que significa que as coisas de que terei saudades, essa logística de tarefas e momentos de mimos em crianças com 17 meses de diferença, tem de ser conciliada com o dia-a-dia: supermercado, horários e prazos para cumprir, empregos em extremos opostos da cidade, tempo para mim e para a minha mulher. Quando estamos no olho do furacão não temos distância para apreciar em pleno a vantagem da meia bolacha Maria semi-mastigada e cuspida em que acabámos de nos sentar para aquela meia dúzia de minutos de televisão no sofá antes de adormecermos de cansaço.

Há uma coisa, porém, de que não sentirei falta: as manhãs. Preparar as pequenas pela fresca para as deixar na creche, antes de ir trabalhar, pode ser um desafio complicado. E imprevisível. Bolas, podiam ter avisado que a montanha russa de sentimentos implicados na paternidade também inclui a carga-de-nervos-pela-manhãzinha, o ficar-pelos-cabelos-antes-de-sair-de casa e o quase-perder-as-estribeiras-enquanto-enfio-meia-torrrada-fria-pela-boca-abaixo.

Até podemos ter tudo preparado ao pormenor, pensado para não se perderem segundos preciosos: os sacos que já ficaram no carro na noite anterior, a roupa escolhida – a nossa e a delas –, a mesa do pequeno-almoço posta, até o raio da faca do pão a jeito. E, quando o despertador do telemóvel toca, até podemos agir como as equipas que mudam os pneus dos carros de Fórmula 1, movimentos ensaiados numa coreografia familiar que já quase nos permite fazer tudo de olhos fechados. Mas de repente... mete-se a realidade pelo meio. Um cocó de última hora mesmo antes de sair. Seguido de outro cocó, da outra filha (ainda me hão-de explicar isto do contágio intestinal à porta de casa). Ou uma birra não calculada porque a boneca ficou esquecida no carro. Ou um copo de leite entornado no vestido. Ou uma vontade férrea de descer as escadas do prédio pelo próprio pé, e não ao colo.

Os cursos de preparação para a parentalidade são bonitos para aprender o bê-a-bá sobre hormonas, o que raio é o colo do útero e métodos anti-cólicas. Mas se alguém se lembrar de alargar os conselhos até aos primeiros anos de vida das criaturas, não se esqueçam de incluir as manhãs infernais no módulo “coisas que te podem lixar a harmonia familiar ou deixar-te com os nervos em franja”. Pelo menos já ficávamos avisados.


* Autor do blogue A Farmácia de Serviço (www.afarmaciadeservico.com) e editor executivo da Notícias Magazine, onde assina semanalmente as crónicas “Vida em Comum”.

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais