“Redondinho” não! Obeso!

Hoje, ser obeso é ser doente,.. pelo pediatra Mário Cordeiro.




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Quando havia fome generalizada, ser gordo era sinal de ser rico. Hoje, ser obeso é ser doente, e alimentar esta doença, alimentando mal e muito as crianças, é correr o risco de mal--estar físico, psicológico e social.


Gordura já não é formosura, e cada vez se veem mais crianças obesas. Chamemos as coisas pelo nome, e não por sofismas como “gordinho”, “redondinho” ou outras coisas assim. Obesidade, uma doença – sim, doença – que tem uma definição, em termos de índice de massa corporal, que em Portugal, está a atingir proporções gigantescas. Há o conhecimento científico, há os saberes, há a disponibilidade de escolha… porquê então esta situação assustadora?
A obesidade infantil é um problema de Saúde Pública. Dados portugueses apontam para cerca de 23 por cento de crianças obesas, para lá das que têm manifesto excesso de peso... Ou seja, em Portugal, quase um quarto das crianças está doente.

A “balança” começa a pender para o “lado mau” depois dos dois anos, quando as calorias ingeridas são excessivas face às necessidades do dia-a-dia, e quando o ritmo de fabrico de novos tecidos e células começa a relentar. A criança aumenta então demasiado de peso, numa idade em que, socialmente, essa forma redonda deixa de ser apreciada e passa a ser ridicularizada: no futebol, o “gordo”, quando muito, joga à baliza, e provavelmente porque tem um corpo maior. Também no cinema, televisão, literatura infantil, o menino modelo é sempre magro; o gordo é o excluído, alcunhado, ostracizado – tão cedo como no jardim-de-infância.

Os pais são os principais responsáveis pelo excesso de peso dos filhos, pois são eles quem escolhe o que se compra e o que se coloca na mesa ou adquire nos restaurantes – o problema não está apenas na quantidade como na qualidade, com relevo para os hidratos de carbono, indutores de insulina e da fome, porque o corpo, dada a nossa genética e a “memória antropológica”, entende que, havendo batatas, massa, arroz, açúcar, pão ou bolachas por perto, há que armazenar, comendo rápida e insaciavelmente, e acumulando essa energia, condensando-a em células de gordura, e depositando-a em locais onde “é mais fácil carregá-la”, como o abdómen e as coxas. Por outro lado, a insulina estimula a fome e a voracidade, e esta “hiperprodução” pode levar à diabetes.

Tratar uma criança obesa é um problema de enormes dimensões, pois terá de envolver todos os que a rodeiam e mudar hábitos. Além disso, sujeitar uma criança a uma restrição alimentar é visto como uma “punição”, porque lhe é extremamente difícil fugir às pressões da propaganda alimentar e à pressão social a que está sujeita.

Muitas das doenças que constituem importantes problemas de Saúde Pública estão relacionadas com a obesidade, como diabetes, tensão arterial elevada, doenças cardiovasculares e respiratórias, além das do foro psicológico. Como os fatores de risco se evitam e combatem, e os fatores protetores e os bons hábitos alimentares se promovem a partir do nascimento, está nas nossas mãos permitir o desenvolvimento de pessoas saudáveis, sem o risco de obesidade. Está nas vossas mãos. É altura de nos consciencializarmos, sem estar sempre a arranjar desculpas para o nosso desleixo ou a dizer que não tomamos cuidados alimentares porque “temos pena dos coitadinhos”… ou que “é só hoje que come bolas de Berlim”. Coitadinhos serão eles, realmente, se os deixarmos engordar e virem a sofrer das piores doenças, de insuficiências várias, de problemas de autoestima e de virem a ter mais probabilidades de serem infelizes, com uma péssima qualidade de vida física e psicológica. O verdadeiro amor aos filhos é promover a sua saúde e o seu crescimento, e não dar cabo deles através do facilitismo mais perigoso.


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