"Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar...”

Que os adultos não se distraiam e que se lembrem sempre de escutar os mais novos e apoiá--los, no seu percurso de vida.


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O sexismo não afeta apenas as mulheres. São cada vez mais os casos em que os “habitantes do mundo masculino” são preteridos, humilhados e postos de parte... por serem homens


A dança é das artes mais antigas, não apenas pelo seu caráter lúdico e estético, mas dançar é intrínseco à humanidade: basta ver como os bebés se movem em danças rítmicas, desde que tenham um qualquer estímulo que os “agite”, sem precisarem de muitos ensinamentos.
As crianças crescem e vão escolhendo (ou os pais vão-lhes impondo) atividades diversas, mas curiosamente a dança torna-se um expoente do machismo e do sexismo. Tirando “danças de salão”, que surgem mais tarde, a dança em geral e o ballet em particular ficam reservados às raparigas. O velho ditado “um homem não chora” parece ter sido substituído por “um homem não dança” (a não ser em discotecas…).

Paralelamente, à medida que crescem, e por causa deste tipo de imposições, muitas crianças e adolescentes sentem que, a determinada altura, têm de fazer quase como uma opção entre eles próprios e os amigos. Não desejando ser ostracizados ou banidos, têm por vezes de enfrentar o grupo, unido enquanto tal, e como este não é muito dado a cedências, são os seus elementos, em particular, que têm de aderir às ideias gerais, e também prescindir das suas. Isso acontece, sobretudo, àqueles que têm maior maturidade e ideias próprias, que se querem afirmar no seu percurso de autonomia, mas que ainda não encontram – até pela pouca idade –, força suficiente para resistir e correr o risco de ficar só.

Associando as duas coisas, recordo-me do caso de um adolescente que segui, que a dada altura resolveu ir para o ballet, dado que pretendia explorar a relação do seu corpo com o meio, com a música e com o espaço. Criticado por todos, na escola e nos restantes grupos de pertença, teve a força suficiente para se manter na dança, felizmente com o apoio sólido dos pais, que sempre o deixaram desistir, se ele desejasse, mas manter-se no ballet, se essa era a sua verdadeira vontade.

Passados uns meses, por ocasião de uma festa na escola, este rapaz “deu show” na sua expressão corporal, que encantou os espectadores, e rapidamente viu as raparigas a rodeá-lo, “gulosas”, perante um macho tão elegante e com uma relação tão boa e síncrona com o corpo.

Posso jurar que, passados uns dias, muitos alunos foram pedir aos respetivos pais para se inscreverem no ballet, e que o grupo o aceitou, ou dito de outra forma, o elegeu como um dos líderes.

Em muitos casos, porém, a força de vontade e o apoio em casa não é tão grande, as dúvidas surgem, e vai-se pelo caminho aparentemente mais fácil: ceder, “encarneirar”, dizer que sim a supostos chefes, mas ao mesmo tempo deixar para trás sonhos, ideias, ideais, tempo e a exploração mais profunda de aspetos que são, se devidamente colocados, muito estruturantes da personalidade: o poder de decisão, a responsabilidade, a autonomia, a afirmação do Eu e, até, a solidão.

Que os adultos não se distraiam e que se lembrem sempre de escutar os mais novos e apoiá--los, no seu percurso de vida. Que as crianças e adolescentes saibam que, na vida social, há que fazer compromissos e cedências, mas nunca abdicar do que somos para agradar aos grupos ou a efémeros gurus. Finalmente, que a arte nobre da dança e no caso particular o ballet, quando praticado por rapazes, que deixe de ser visto como muitas vezes ainda é, e sejamos francos: um “caso de orientação sexual”. De todos os disparates que se dizem, este deve ser um dos maiores. Rapaziada: gostam de dançar e de ballet? Força!


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