Habitar (e viver) melhor…

Há que ver a casa “pelos olhos do bebé”, e pensar em janelas, escadas, eletricidade, cozinha... pelo pediatra Mário Cordeiro.



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Há que ver a casa “pelos olhos do bebé”, e pensar em janelas, escadas, eletricidade, cozinha, casa de banho, cantos, pavimentos... Nem sempre o que é bonito é prático e seguro


Tenho constatado que, no verão, vários pais de crianças que sigo me disseram ir comprar em breve uma casa nova. Sem me debruçar sobre pormenores imobiliários, há um aspeto menos falado mas deveras importante, como atesta o que a “British Medical Association” escreveu e que citei acima. Quando se compra uma casa, basta ir a um sítio de uma agência imobiliária, na Internet, e o que lá está é o que o cliente deseja, procura e valoriza. Todavia, raramente há informações sobre a insolação das casas (exceto em apartamentos de luxo), a sua orientação em termos de pontos cardeais, a exposição ao vento dominante, se o local é num vale ou numa colina, se há linhas de água perto ou postes de alta tensão nas cercanias, se os prédios à volta sufocam o que está à venda, se é fácil estacionar, se tem parques infantis próximos, enfim, detalhes e mais detalhes que não estão lá e que porventura não vemos quando visitamos as casa, tal como os ruídos noturnos, dado que só as vemos durante o dia. Para mais, a pressa em comprar ou alugar e a falta de tempo para visitar dezenas e dezenas de casas leva-nos a escolher meia dúzia – no jornal ou na Internet - que depois iremos ver.
A pressão sobre as pessoas é grande e o preço dos apartamentos está cada vez mais relacionado com a sua qualidade. Todavia, muitas vezes prendemo-nos a detalhes que, feitas as contas, não justificam o aumento do custo (tipo de soalho, existência de máquinas na cozinha, jacuzzi, etc., ou seja, modificações que se fossemos nós a faze-las provavelmente custavam muito menos) e esquecemos aspetos que são fundamentais para quem, depois, vai viver grande parte dos seus dias aí. Os agentes imobiliários só falarão deles quando lhes convier, e a insolação ou a exposição aos ventos dominantes, que são aspetos fundamentais a pensar quando se aluga ou compra uma casa, (mesmo que traga um IMI superior, não contem comigo para entrar na histeria demagógica dos critérios do imposto), ficarão esquecidos, em comparação com outros fatores muito menos importantes para a saúde.

A qualidade da habitação influencia, de modo determinante, a saúde dos seus habitantes, designadamente das crianças, e isso inclui, desde o ambiente in-door, como o tipo de chão, tapetes, arejamento e aquecimento, etc., até à localização, humidade, vento, sol, poluição incluindo o ruído, já sem falar na vizinhança, nas relações de rua, tipo de bairro, ou na relação humana com os demais residentes e condóminos.
Ademais, os fenómenos são em cascata: uma casa de construção deficiente ou de isolamento pobre – com frinchas nas janelas e sem vidros duplos, obrigará a um esforço energético (e económico) para a manter a temperaturas aceitáveis, com sobrecarga de aquecimentos e efeitos deletérios para a saúde. Uma casa húmida convida ao crescimento de fungos e a uma maior incidência de doenças por exemplo do foro respiratório.
A segurança é crucial. Os pais têm de ver a casa “pelos olhos do bebé”, e pensar nas janelas, escadas, eletricidade, cozinha, casa de banho, cantos, pavimentos e tantas outras coisas. Nem sempre o que é bonito é prático, nem sempre o que é prático é seguro. Escolham uma casa desenhada por uma arquiteta que seja mãe de filhos pequenos. Terão mais hipóteses de verem respondidos os vossos requisitos do que se tiver sido concebida por um homem adulto sem filhos pequenos ou ainda sem netos...


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