Existe (mesmo) a adolescência?

“O quê? Tens adolescentes em casa? Coitado (ou coitada) de ti!”... Leia a crónica do pediatra Mário Cordeiro.




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Os adolescentes não são como as maçãs e a pescada, estandardizáveis em Bruxelas ou moldáveis à medida das “cabeças pensantes”, por mais doutas que estas sejam...


Fala-se da adolescência como se esse período da vida fosse mais ou menos igual para todos, uma “fase de transição” entre a infância e a adultícia. Depois, surge o susto: “O quê? Tens adolescentes em casa? Coitado (ou coitada) de ti!” ou então, numa outra versão: “Estás preocupada com as birras? Espera até ele chegar à adolescência…”
Não partilho desta visão, pois acho que existem tantas adolescências como adolescentes e, por exemplo, encanita-me ouvir pessoas caracterizar fulano ou beltrano como ou “parecendo um adolescente” só porque essas pessoas têm atitudes mais rebeldes, contra o sistema, ou fora dos padrões que, segundo eles, seriam os padrões da idade adulta. Irrita-me pela simples razão que conheço tantos adolescentes que se comportam desta forma como os que optam pela forma exatamente oposta e ninguém ainda me provou que uma ou outra atitude seja a do “verdadeiro adolescente”. Tudo dependerá do enquadramento quanto à respetiva pessoa e se é ou não talhado à medida do seu carácter e da sua personalidade. Os adultos gostam de se defender – ou defender corporativamente o seu grupo etário – pondo para baixo os que inexoravelmente os substituirão e que viverão mais tempo e apreciarão coisas que nós “já cá não estaremos para ver”.

A definição de estereótipos é das piores coisas que se pode fazer. E, no fundo, o que sabemos nós dos adolescentes e da adolescência? Tenho a ideia que sabemos muito pouco da vida do grupo etário dos dez aos 19, designadamente o que pensam, o que sentem, como vivem. Sabemos pouco, inclusivamente do ponto de vista científico, porque o mundo gira depressa e os saltos geracionais passaram a fazer-se num espaço de tempo curto e não de pais para filhos, numa aldeia global e não no círculo mais próximo da família e dos amigos. Por outro lado preocupamo-nos pouco em perguntar aos próprios o que desejam e querem, como sentem e o que sentem. Preferimos, isso sim, emitir juízos de valor e resumir tudo a “taradinhos das redes sociais”, “ignorantes”, “preguiçosos” ou “viciados” que “se estão nas tintas para estudar e para o futuro”.

A ideia de que mourejamos uma vida para um grupo de meninos e meninas usarem e abusarem custa-nos… mas não é verdade provada que as novas gerações sejam constituídas por uns idiotas encartados que só têm cabeça e coração para os iPhones ou para o Facebook.

Existem características bio-psico-sociais que são comuns aos adolescentes, no que se refere ao seu crescimento, desenvolvimento, maturação, afirmação da identidade, expressão da sexualidade, aquisição da autonomia, caminho para a independência económica e profissionalização, etc. Mas a maneira como todos esses parâmetros se processam é diferente de adolescente para adolescente. Mais, sendo a adolescência um período que compreende dez anos de vida (ou mais), será que poderemos alguma vez “meter no mesmo saco” tantas realidades, tantas idades, tantas pessoas? Deixemos os adolescentes ser adolescentes, ou seja, ser eles próprios. Os seus comportamentos escolares, familiares, afetivos, sociais, os seus padrões de sono, de nutrição, de gostos, atividades lúdicas e desportivas, hábitos de ver TV ou de utilizar o computador e as redes sociais, enfim, a sua vida, não devem ser aferidos por um qualquer padrão.
A cada um a sua vida. Não fomos nós também diferentes dos nossos amigos e conhecidos da mesma idade? Os jovens não são como as maçãs e a pescada, estandardizáveis em Bruxelas, em Lisboa ou em qualquer lugar, ou moldáveis à medida das “cabeças pensantes”, por melhores e mais doutas que estas sejam.


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