Dar de mamar

A opção é da mãe, e qualquer opção, desde que informada e consciente, é a melhor.


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Mamíferos. Comecemos por aí. A espécie humana, à semelhança de outros animais, integra a classe dos mamíferos, que têm como característica principal alimentarem-se de leite materno quando pequenos. É isto que define os mamíferos. E não nos devemos envergonhar da nossa condição.

Se o aleitamento materno é melhor, quer para o bebé, quer para a mãe, se é mais prático, económico, vantajoso, universal, fisiológico, natural... então porquê gastar tanto tempo a falar do assunto? Não deveria corresponder a uma prática normal que ninguém, em princípio, se atreveria a questionar?

Só que as coisas complexas não são fáceis, como diria La Palice, e o tema tem bastante mais que se lhe diga. O que é verdade é que, contra todas as evidências e argumentos científicos, as taxas de aleitamento materno ainda ficam aquém do que seria desejável... e também não é por acaso que, apesar de praticamente todas as mulheres saberem (e afirmarem) que o leite materno é o melhor para os seus filhos, expressando o desejo de amamentar, ou de 95% das mães saírem das maternidades portuguesas com esta prática, pelo menos em regime misto, o aleitamento materno sofre um rápido declínio ao fim de alguns dias ou semanas, atingindo valores francamente baixos no final do terceiro mês – altura em que as mães ainda nem retomaram o trabalho fora de casa.

Uma coisa é certa e deve ser deixada bem claro: nenhuma mãe pode sentir-se obrigada a dar de mamar. Nenhuma mãe é melhor ou pior mãe por amamentar ou não o seu bebé. Deve dar-se de mamar se se quiser, se se puder e enquanto for bom para todos.

São muitas as causas que levam ao abandono do aleitamento sem ser por desejo da mulher. Vamos falar de uma delas, inerente à inexperiência dos pais (mais de dois terços dos bebés que nascem em cada ano são primeiros filhos!) e à pressão das pessoas que rodeiam o bebé: o peso.

Se lhe perguntarem “Até quando vais dar de mamar?”, não responda! Não caia nessa armadilha! Porque a resposta é impossível de dar e, ao definir um prazo de “x” meses está-se a amarrar-se a um objetivo. O que se deve fazer, exclusivamente, é perguntar-se a si própria: “vou dar a próxima mamada?” – e de “próxima em próxima” lá se chegará... onde se chegar. Veja este número: 400. É um número enorme. Ao chegar a este número as mães ficarão radiantes com o investimento que fizeram. E 400 mamadas são, afinal, dois meses. Se tivesse projetado, por exemplo, quatro meses, acharia que só tinha cumprido metade dos objetivos, o que só serviria para desiludir, criar sentimentos de culpa e de frustração. Nenhum decreto-lei obriga a dar de mamar. Dar de mamar é um ato de total liberdade, e que deve durar enquanto a mãe queira, possa e a criança deseje. E se num dado momento a opção é outra, nada muda em termos de qualidade maternal ou de amor.


O colostro

Uma das perguntas que muitas vezes me fazem é se o colostro chega para alimentar o bebé. Claro que sim... ou a natureza não o teria “construído” dessa maneira! O colostro é um leite cuja composição se adapta especificamente à idade do bebé, às suas características e necessidades, e também à situação do próprio bebé. Não há dois colostros iguais, porque também não há dois bebés e duas mães iguais. O colostro tem um teor baixo em gordura, e elevado em hidratos de carbono, proteínas e anticorpos, para que seja o mais adequado possível ao funcionamento metabólico do bebé, bem como à sua fragilidade de defesas anti-infeciosas. A digestibilidade do colostro é grande, com propriedades nutricionais concentradas, o que faz com que seja suficiente, mesmo em pequenas quantidades. O colostro tem também um efeito laxante, ajudando o bebé a defecar, o que é importante se pensarmos que o mecónio (o cocó que o bebé tem dentro da barriga quando nasce) é espesso e pode criar algumas dificuldades ao bebé, quando evacua. Por outro lado, como o intestino está ainda descoordenado, há uma tendência para a prisão de ventre – o colostro ajuda a contrariar esta tendência.


A ansiedade e o stress – inibidores da lactação

A pressão social, que exige, das mães, uma performance impecável e que cria um clima em que a mulher se sente, constantemente, a ser avaliada no sentido de saber (ela ou os outros) se está ou não a ser uma “boa mãe” ou uma “mãe perfeita”, leva a que muitas mulheres – até pela falta de apoio familiar e profissional –, fiquem rapidamente incapazes de gerir esse estresse.

É sabido que as preocupações e o cansaço, entre outras coisas, causam inibição da saída do leite, por inibição da ocitocina, uma hormona com várias funções, uma das quais a contração do útero, é por isso que as mães que amamentam têm dores abdominais muito fortes nos primeiros instantes da mamada. São dores “boas”, mas muitas vezes os profissionais esquecem-se de avisar as mães, pelo que essas dores vão provocar grande ansiedade e o receio de que “algo esteja a correr mal”. Outra das funções da ocitocina é, precisamente, a expressão do leite. Se a mãe pensa que não vai conseguir amamentar, que o seu filho vai ficar à fome – seja porque o bebé chora, seja porque está cansada ou por outra razão qualquer –, se está sobrecarregada com trabalho em casa, a receber visitas fastidiosas e a fazer “sala”, a ter que contar, pela “enésima” vez como foi o parto, se o tempo lhe falta para conseguir contemplar e adorar o seu bebé e ressalvar a intimidade desses primeiros momentos, essa mulher vai forçosamente ficar preocupada e ansiosa. Dá-se então a inibição da saída do leite, fazendo com que o bebé tenha que fazer mais esforço para mamar, se canse mais facilmente, adormeça, fique com fome e, passados alguns minutos, esteja com fome novamente, proteste e esteja ao peito novamente... para tudo se repetir.


Ele vai ao peito, mas parece que não sai nada.

Se calhar o meu leite é fraco, ou não tenho leite. Puxa, puxa, magoa-me o peito, até sai sangue. Fico com dores terríveis, e tenho o peito todo engurgitado. Ele está ali a mamar e, passados dez minutos, adormece. E fica assim, quietinho, parece sossegado, mas uma hora depois já está aos berros e a minha cabeça já não aguenta isto. Acho que não tenho leite, ou que ele é fraco. O melhor é começar já a dar o biberão...


Será que o bebé está a aumentar? Deverei pesá-lo “todos os dias”?

A balança pode ser uma fonte de estresse. Vejamos: um bebé não aumenta “quilos” em meia dúzia de dias. Mais: se for um bebé leve, o aumento diário será reduzido. Para mais, há bebés que não são regulares no aumento, podendo estar dois ou três dias sem grandes variações e, de súbito, aumentarem bastante o peso. Ainda por cima, se calcularmos uma média de 30 gramas/dia, vemos que os xixis, cocós, ter ou não comido, mudanças de balança, roupas, etc., podem somar muito mais do que esse valor.

Assim, é recomendável que os pais pesem o bebé “a olho”, ou seja, se não houver indicação do médico no sentido de pesagens mais frequentes, depois da primeira consulta e até à consulta do mês (repito, em bebés saudáveis e de peso normal) os pais poderão utilizar o “olhómetro”, e ver a partir de três critérios, se o seu bebé está a aumentar o que deve:

- o bebé faz intervalos dentro do que foi referido – 2h30 a 4h30 durante o dia e eventualmente mais à noite;

- o bebé “está bem” – dorme tranquilo, chora com força quando tem fome ou outro

- incómodo, está bem disposto e calmo quando está acordado sem qualquer problema que o mace;

- os “refegos” nas coxas, barriga, maminhas começam a aumentar. O queixo duplica e começa a esconder o pescoço. As bochechas ficam mais redondas.

Se tudo isto se está a passar, então não vale a pena estar a pesar o bebé.


Pais. Não deixem que estes momentos de descoberta, transcendência, curiosidade, dúvidas e inquietações normais se transformem num inferno. Porque se assim for, então digam adeus ao leite, passarão um péssimo bocado e acabam no biberão com um leite comercial, tristes e frustrados.

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