Elogiar os filhos por serem tão bons pais

alt

Jurei a mim mesma que, a partir de hoje, vou repetidamente lembrar os meus filhos dos pais espantosos que são e dos filhos extraordinários que têm.


Quando os pais de alguma amiga me devolviam  a casa depois de uns dias passados com eles, a minha mãe ouvia com espanto os elogios que me faziam. Não escondia a incredulidade quando juravam que eu era bem educada, ajudava em tudo o que podia, sempre bem disposta, etc. e tal. Mal fechava a porta olhava para mim como quem encara o melhor agente duplo do universo, e refrescada certamente pelo descanso que a minha ausência lhe proporcionara, suspirava qualquer coisa como “mais vale ser um anjo para fora e um diabo para dentro, do que o contrário”. Pelo menos, deixava-a ficar bem o que, convenhamos, é quase tudo o que uma mãe pode desejar. A verdade é que, nos minutos, horas e dias que se seguiam, voltava rapidamente ao pior de mim, desforrando-me do esforço que exigia fazer o papel de menina bem comportada.

Lembrei-me de tudo isto quando chegou a vez dos meus filhos, com a vantagem — para eles —  de que ainda me lembrava bem de como era cansativo dar o melhor de nós, na ânsia de causar boa impressão e de sermos gostados. Por essa altura já entendia, também, que por muito injusto que seja para a família, será dela que vamos esperar sempre um amor incondicional. E que isso, desde que com limites  — porque os pais não são bonecos de borracha para esmurrar sem consequências — é uma coisa fantástica.

Agora que passei a avó vejo tudo isto por um novo ângulo. Desespera-me que as minhas netas moam o juízo aos pais, até porque os seus pais são os meus filhos, que quero proteger. Mas, agora, sou eu a de fora, aquela que sobretudo quando está sozinha com elas, usufrui do seu comportamento exemplar. São generosas, atentas aos outros, inteligentes, cheias de sentido de humor, sensíveis e criativas e mais adjetivos houvesse. Percebo como cresceram tanto e tão bem, cada vez mais capazes de lidarem com a frustração, cada vez mais capazes de se rirem de si mesmas, mais seguras e independentes. Admiro-as, mas admiro sobretudo os pais que as ajudaram a tornar-se pessoas tão espantosas, que com infinita paciência e amor lhes aturam os desmandos, lhes moldam o génio, e lhes dão o ânimo para superarem os seus medos e arriscarem mais longe. E que, para cúmulo, raramente têm a possibilidade de ver em direto e ao vivo como o seu esforço compensa.
Por isso jurei a mim mesma que, a partir de hoje, vou repetidamente lembrar os meus filhos dos pais espantosos que são e dos filhos extraordinários que têm. Suspeito que, nos dias mais tensos das férias de verão, em que avós, pais e filhos estão (espera-se) mais tempo juntos, não vai ser má ideia ir relendo aquilo que eu própria escrevi.


Leia outras crónicas de Isabel Stilwell:

Não infantilize os filhos (os netos agradecem)

A preocupação é "contagiosa"

Avós com ciúmes de mães que amamentam

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais