Não infantilize os filhos (os netos agradecem)


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Não sei se era assim antes de ser mãe. Talvez fosse. Mas o que sei é que a partir do momento em que os meus filhos nasceram fui atacada por esta ilusão de que todos os seus problemas eram meus e que tinha a obrigação de os resolver. Não me julguem mas, pior do que isso, sentia-me a única capaz de os resolver depressa e bem.
A alucinação, provavelmente provocada pela ocitocina a jorrar em catadupa, tornava difícil delegar nos outros, mesmo no pai, e levava-me a sentir que não havia obstáculos insuperáveis. Como se uma capa de super-mãe me tivesse caído sobre os ombros.

Por outras palavras, caí que nem um patinho na armadilha em que todos tropeçamos quando amamos profundamente alguém: sentimo-nos responsáveis por ela, queremos ser-lhe indispensável, e não suportamos a ideia de que possam viver alegremente longe de nós. Iludidos por este sentimento de controlo e omnipotência, sentimo-nos bem quando estão bem, eufóricos por uma vitória que julgamos nossa, e desesperados quando estão mal, assacando todas as culpas.
Pensando bem, é de certezinha um truque da natureza para nos manter próximos das nossas crias, capazes de nos esquecermos de nós mesmos a favor daqueles bebés que nos enfeitiçam com os olhos, e nos dominam com aquele cheirinho que deve conter drogas que nos entontecem e dominam. Pensando ainda melhor, não há dúvida nenhuma de que só assim suportaríamos a tortura do sono a que nos sujeitam, a forma como entram nas nossas vidas e as viram do avesso, levando-nos a voluntariamente jurar-lhes fidelidade eterna. Para os proteger damos a vida. Literalmente. E assim eles crescem saudáveis, e safam-se de predadores, continuando a espécie.

Sim, entende-se e até tem graça, mas supunha-se, pelo menos acho que sim, que o efeito desaparecesse mal se tornassem autónomos. Que um dia seríamos capazes de cortar o cordão umbilical e de os deixar por conta própria. Mas não.
Sem que nos peçam nada, ou até quando explicitamente nos imploram para não o fazer, lá estamos nós a ruminar, nos seus problemas profissionais, dilemas sentimentais, dificuldades financeiras, o que for. Tudo, raios, tudo nos preocupa. E, de todas as vezes, queremos ser nós a soprar a ferida e a pôr o penso.

Um dia os nossos filhos têm filhos. E quando a racionalidade levaria a supor que, finalmente, os considerávamos emancipados fica pior ainda. Às segundas, quartas e sextas angustiamo--nos com o cansaço e responsabilidade que lhes invadiu a existência. Corremos a acudir, como se não fossem tão capazes de os superar, como nós já fomos. Infantilizamo-los e, sem querer, diminuímo-los aos olhos dos seus próprios filhos. Às terças, quintas e sábados preocupamo-nos com os netos. Coitadinhos, o que seria deles sem nós, exclamamos, e depois admiramo-nos que os nossos filhos se irritem. E, aos domingos, claro está, preocupamo-nos com ambos. Fazíamos melhor em deixá-los em paz e ir à nossa vidinha, e se não a temos, tratar de a arranjar. E não se ofenda, estou a falar comigo mesma.


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