A preocupação é "contagiosa"



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Estarmos pré-ocupados significa que o espaço dentro de nós está previamente preenchido, não deixando lugar, ou pelo menos tanto lugar como desejaríamos, para gozar o presente...


Carminho de vez em quando tem uns pesadelos andantes, quase sonâmbulos, em que protesta e não parece reconhecer ninguém. Desta vez acordou sobressaltada, saiu da cama sem saber bem para onde ia, enquanto se chorava por estar tão “preocupada” com a irmã. “Estou preocupada com a Mana”, repetia, aflita. Preocupada, era mesmo essa a palavra, na boca de uma criança de cinco anos. “Bem vinda ao clube”, pensei, com uma certa aflição. Cá por casa somos todos “Worriers”, gente que consegue não se levar muito a sério, capaz de dar a volta aos problemas com algum sentido de humor, mas com uma “preocupação” subjacente, que parece nunca se ir completamente embora. E, fatalmente, preocupamo-nos com os problemas dos outros, mais do que com os nossos, o que invariavelmente é uma estupidez porque os próprios não estão nada tão preocupados com eles ou, se estão, têm mais do que capacidade para os resolver.
Quem perde sempre somos nós. Estarmos pré-ocupados, como o nome indica, significa que o espaço dentro de nós está previamente preenchido, não deixando lugar, ou pelo menos tanto lugar como desejaríamos, para gozar o momento presente. O que é uma pena.

Talvez os genes tenham alguma coisa a ver com isso, mas muito mais provável é que seja mais do género de uma doença infecciosa, que se vai contagiando a quem se aproxima. E aproximamo-nos muito uns dos outros, felizmente.
Claro que a culpa deve ser da mãe. Não da mãe Ana, nem da mãe-avó Isabel, nem da bisavó da Minho, mas de uma mãe primordial, talvez mais próxima de Eva e do Jardim do Paraíso. Porque, de facto, a culpa das mães é tão “original” que só pode ter vindo com a trincadela do fruto proibido. Ou não.
Revejo uma lição do Ted-ex (www.youtube.com/watch?v=WuyPuH9ojCEque), que explica de forma muito simples os efeitos do stresse crónico no cérebro, através de uma hormona chamada cortisol, útil para nos ajudar a fugir de um perigo iminente, mas corrosiva quando circula no sangue sem prazo de validade: encolhe-o, fica mais pequenino, incapaz de cumprir com as suas funções, com menos capacidade de criar novas sinapses, o que leva a dificuldades de aprendizagem, a problemas de memória e por ai adiante. Mas é o exemplo dos ratinhos que agora procuro.

Os bebés de uma mãe cuidadora, que os protege e está presente, têm mais recetores de cortisol, o que significa que, uma vez adultos, vão lidar muito mais facilmente com o stresse do que os ratinhos a quem calhou em sorte uma mãe negligente (ela própria, coitadinha, provavelmente filha de uma mãe negligente, mas essa é outra história). Mas o mais extraordinário, e assustador, para dizer a verdade, é que essa “malformação” vai passar aos filhos dos ratinhos mal amados, e aos filhos deste e por aí adiante, pelo menos durante algumas gerações – não é uma alteração do DNA, mas uma alteração epigenética, ou seja dos genes que se vão expressar.
Fatalista? Um bocadinho, mas ao que parece uma boa mãe substituta, sobretudo num momento precoce do desenvolvimento, pode anular esta herança – notícia que neste mês da mãe bem pode sensibilizar juízes e técnicos que decidem o futuro de tantas crianças negligenciadas, dentro e fora de instituições. E não só. Também podem sensibilizar as avós preocupadas, a procurar estratégias para dissipar a sua preocupação, ensinando pelo exemplo. Porque de outra forma, por muito que não o desejem, vão ter netos preocupados. Ai, meu Deus, mais uma preocupação.

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