A saga da professora má


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"Uma verdadeira professora tem de ser capaz de apontar o erro, de fazer ver as consequências que traz consigo, suportando a dor e a desilusão que essa constatação objetiva terá na criança."


Começou por um acaso. Um dia, quando as gémeas chegaram do jardim de infância, disse-lhes: “Sentem-se com juízo à mesa, porque está aí a chegar a Professora Má.” Com risos e gargalhadas puxaram das cadeirinhas alentejanas, depois de se terem munido de papéis e lápis — as meninas são tão meninas! —, e contaram-me que uma das auxiliares da escola tinha apanhado chibatadas nas mãos, quando era pequena. A compaixão com que o diziam, misturava-se com incredulidade: sem duvidarem por um minuto da palavra da querida Xica, que adoram, parecia-lhes tão inconcebível como se lhes tivessem dito que um avião ia aterrar na sala, naquele momento.

“A professora Má também bate?”, quiseram saber, num risinho nervoso.

É claro que a Professora Má batia, tinha um tronquinho fininho de uma árvore do jardim, que saquei prontamente de um vaso de flores, e vergastava com elas os dedinhos dos alunos (e exemplifiquei).

“E manda para o canto com orelhas de burro!”, acrescentei logo de seguida, incorporando a detestável criatura, como quem faz de lobo mau.

A partir daí foi fácil. Pela voz autoritária da Professora Má ordenei-lhes que desenhassem e recortassem orelhas de burro, o que fizeram empenhadamente.  E, quando, a obra acabou, a Minho deu dois saltos, levando-me a mandá-la para o canto com elas postas. “Não vou”, respondeu com tal convicção à ordem recebida, que pensei, contente, que quem cresceu com respeito e liberdade talvez nunca aceite ser maltratado. Nem por professoras, nem por chefes ou maridos.

Depois desta sessão, seguiram-se muitas. Sentadas direitas, a brincar à escola rígida e formal que felizmente ainda não têm, ansiosas pelos desafios das “contas” e das “letras”, que decifram como um jogo. Invariavelmente a Professora Má fala numa voz brusca e autoritária, e quando por segundos se distrai, dizendo “Muito bem”, “Boa, Minho!”, “Que bem feito, Mana!”, é logo chamada à atenção por uma das duas. “As Professoras Más não dizem ‘Boa’”, as “Professoras Más nunca acham que nada está bem”, corrigem, sem me deixar desviar da personagem assustadora que criei.

Mas a reação mais visceral foi a da Madalena, no dia em que a Professora Má, ao reparar que ela apagava furiosamente uma conta mal feita, e quase rasgava o papel na fúria, lhe disse “Menina!!! Para que é que é essa zanga toda? Não faz mal fazer erros!”.  Parou o que fazia, mas só para me dizer indignada: “A Professora Má não deixa fazer erros. Se deixa fazer erros não é uma professora má”.

Fiquei a pensar. Não deve ser nada fácil ser professora no mundo real. Por um lado, sem a aceitação do erro não há aprendizagem, e uma professora que lhe seja intolerante vai produzir uns macaquinhos amestrados que escrevem, fazem contas e, pior do que isso, pensam, apenas dentro das quatro linhas, sem se atreverem a pôr um pé em ramo verde. Por outro, uma verdadeira professora tem de ser capaz de apontar o erro, de fazer ver as consequências que traz consigo, suportando a dor e a desilusão que essa constatação objetiva terá na criança. Para muitas delas um verdadeiro choque, já que pais e avós preferiram sempre dourar a pílula, tal o medo de provocar sofrimento nos filhos/netos.

Mas há ainda um terceiro desafio, porventura mais complicado, que é o de ser capaz de ensinar à própria criança a aceitar que erra, a ser bondosa consigo mesma na avaliação que faz das suas falhas, sem se torturar com o “falhanço”, e sem desistir de voltar a tentar.

Decididamente, a minha admiração pelas boas professoras é ilimitada. Quanto ao meu alter-ego Professora Má, numa versão Dr. Jeckell e Mr Hyde, vamos ver em que é que dá.

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