Cuidado com as birras dos avós



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Apetece-me tanto fazer uma birra”, diz a Carminho, numa voz desesperada, como um alcoólico que confessa o medo de reincidir na bebida. Escondo a tempo a minha vontade de rir, enquanto que a Ana age depressa mas com calma (calma que nunca tive com os meus filhos!!!!), acolhendo-a num abraço apertado e dizendo-lhe qualquer coisa como “Percebo, mas não pode”, início de uma conversa sobre o contratempo que originou a vontade de perder o controlo e partir qualquer coisa... ou de bater em alguém.  
Observado de fora, como só ser avó permite, é comovente ir vendo o esforço de auto-controlo que as crianças vão fazendo para engolir a frustração, resistir ao impulso de querer tudo aqui e agora, e inventar estratégias para contornar as desilusões e as contrariedades.

E se é verdade que os pais têm um papel fundamental no ajudar a crescer, ir observando as gémeas, geneticamente muito semelhantes, como se fossem ratinhos de laboratório, deixa bem claro que a capacidade para deixar de fazer birras (ou tantas birras), não é uma qualificação que os adultos podem conferir a uma criança, ao estilo de condecoração do 10 de junho, mas uma competência que se vai conquistando aos bocadinhos. A ritmos diferentes, com recaídas, mas no bom sentido, como os avós que já passaram por tudo isto, sabem bem (e já agora podem aproveitar para dizer!).
Há medida que os mais pequeninos conseguem verbalizar melhor o que sentem (“Mãe, tenho tanta vontade de bater na Minho”, em lugar de lhe bater mesmo), em que percebem que os seus gestos têm consequências (se atira os brinquedos ao chão, tem de os apanhar), e em que aprendem a usar a inteligência para negociar (e deixar a nu as nossas contradições: “Não me estás sempre a dizer que é preciso saber esperar?”), os conflitos tornam-se mais subtis e menos dramáticos. 

Em matéria de birras, mais do que Dupont e Dupont, as gémeas parecem-se mais com o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde,  provavelmente intuindo que os pobres pais não teriam capacidade para lidar com duas crianças (agora três) em crise, e que portanto tem de ser à vez.  Ou seja, normalmente há uma fase em que uma está mais reativa à frustração e a outra um anjo.

Mas para os pais, ou não fossem programados para esquecer o que é mau, sob risco de não haver famílias com mais de um filho, aquele que está na berlinda leva com o rótulo de ser o mais birrento, epíteto que passa semanas depois para o outro, num equilíbrio de forças que se encarregam de manter.
Enquanto isto, os avós sensatos ficam calados. Mas nem sempre se consegue ser sensato, e por isso é fácil que caiam na tentação de dar palpites, alegando que em sua casa os netos nunca fazem birras, uma afirmação que só pode... provocar uma birra nos pais. Birra que vai consistir em acusar os avós de lhes mimar demais os filhos, ou outra coisa qualquer do género. E aí são os avós que reagirão em birra, por vezes com armas mais letais do que as dos filhos e dos netos juntos, insinuando que são melhores educadores (“Se calhar é porque estou mais com eles!”), e que foram melhores educadores (“Ai de ti, se alguma vez me tivesses respondido assim!”).

E aí sim, as birras em vez de marcos de crescimento, em que ambas as partes trabalham juntas para sair do buraco em que inadvertidamente caíram, tornam-se veneno que pode contaminar a sério toda uma família.

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 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

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