Despedidas, longe da vista dos pais


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Assuma que a partir do momento em que os pais entram, não vai competir com eles, nem sequer tentar ajudar os seus filhos no cuidado dos filhos deles, deixe que se amanhem uns com os outros, e ponha tampões nos ouvidos.

Não é politicamente correto dizê-lo mas os netos reagem com os avós, tal e qual os cães de família: se o dono está presente, só querem o dono, só lhe obedecem a ele, e andam sempre junto dos seus calcanhares na esperança de que lhes faça festas ou os leve à rua. Bem pode alguém, colocado mais abaixo na cadeira alimentar, acenar com a trela, que não tem sorte nenhuma. Mas, quando o dono se ausenta, o cão passa a sua lealdade para o segundo na cadeia de comando, e tudo acontece tal e qual como se fosse o primeiro. E assim sucessivamente.

Os netos fazem o mesmo. Primeiro está, geralmente, a mãe, e quando é ela a comandar, coitado do pai que naqueles momentos tenta arrastar o filho para lhe calçar os sapatos; depois é o pai, claro, e portam-se tão bem com ele, que a pobre mãe tem de o ouvir dizer que não sabe porque se queixa da canseira que é ficar com os miúdos todo o dia. E, se sai o pai e ficam os avós, é provável que a avó ocupe o lugar de referência, e seja aquela a quem os netos correm se magoaram um joelho, têm fome (cá em casa se têm fome não vão, de certezinha, para a avó, mas as exceções não podem estragar-me a teoria!), ou, durante a noite, se ficam cheios de saudades dos pais. Mas se a avó não está, o avô passa a comandar todas as operações, e a receber os respetivos beijinhos e abraços que vêm com a consciência de que é ele o adulto que lhes dará colo e lhes salvará a vida, se for caso disso.

O que importa nesta “parábola”, é que quando metemos na cabeça de que é assim em todas as casas, em todas as famílias e com todas as crianças, e não decorre de uma birra do pobre miúdo, mas de uma necessidade intrínseca e instintiva de se confiar em primeiro lugar a alguém, poupam-se muitos atritos, e mágoas. Porque é dor o que se sente, quando depois de uns dias passados com netos adoráveis que se nos penduram ao pescoço e nos falam na voz mais meiga imaginável, se é subitamente escorraçado, ou deixado para um segundíssimo plano. Nestas situações, a primeira tentação dos avós é amuar. E sentir um desejo de “vingança”, que nos mais insensatos toma a forma de uma chantagem emocional choramingona, ao estilo “Para a próxima o avô não te leva aos baloiços”, e nos mais sensatos é silenciada, mas fica a remoer dentro de nós qualquer coisa como “Para a próxima vou dar menos de mim!”.

É claro que é uma reação infantil, e a maior parte dos avós não admitirá que se sente assim, mas quase que apostava que sim, mesmo se não estão habituados a transformar as suas relações em contas de Deve e Haver. Depois passa, claro, e da vez seguinte entregam-se com o entusiasmo de sempre.

O que fazer? Antes de mais nada, aceitar que não se é, de facto, o primeiro na vida dos nossos netos, e ainda bem — estes episódios são alertas saudáveis, de que não podem, nem devem, ser a única fonte de realização pessoal. E depois há alguns truques como, por exemplo, despedir-se deles logo que saem do carro, e antes de baterem à porta e as crianças serem tomadas pelo entusiasmo de voltarem a estar em casa, e com os pais. Se são os pais que os vêm buscar, porque é que antes da hora não fazem as despedidas e os agradecimentos, recordam as coisas melhores do fim-de-semana? Se ficam na mesma casa, assuma que a partir do momento em que os pais entram, não vai competir com eles, nem sequer tentar ajudar os seus filhos no cuidado dos filhos deles, deixe que se amanhem uns com os outros, e ponha tampões nos ouvidos.

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