Trabalhar para a eternidade

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São tão hábeis. E nós tão fracas. Sempre a trabalhar para o pódio, sempre em discreta competição com os pais, sempre aflitas de perder o lugar no coração dos nossos netos


Estou sempre a dizer que não estrago os netos. Que a única coisa que se estraga quando estão ao meu cuidado são as minhas costas, as malditas “cruzes” que acordam com aquele pôr e tirar do berço, o sentar-me no chão a brincar, armada em criança pequena, e gritam quando num momento de insanidade decido pegar naqueles 18 quilos, vezes duas, e fazer uma acrobacia qualquer.
Pois, mas agora não tenho a certeza absoluta. Face a uma neta perita em manipular emoções, percebo que é mais fácil levar uma avozinha a ceder, do que uma mãe. Pela simples razão de que estamos ainda mais preocupadas do que as mães com a nossa cotação junto dos nossos netos, e trememos de medo quando nos dão a impressão de a terem revisto em baixa.

Pelo menos eu tremi naquela noite em que a Carminho, acabada de chegar a dormir no carro de uma viagem longe, entrou em casa e exigiu uma Festa do Pijama. Uma festa que tínhamos inventado da última vez em que tinham ficado connosco, e que incluía todos vestirmos o pijama para jantar, depois música e dança e finalmente o filme da Mary Poppins, com pipocas. E favas para descascar.

Comovi-me que se lembrasse de tudo, com tanto detalhe. Que tivesse registado na memória, e quisesse repetir, um acontecimento que se podia tornar o nosso ritual, e os avós procuram ansiosamente rituais que sejam só deles... Mas eram 11 da noite, já tínhamos jantado, não havia pipocas em casa, etc, e etc e tal.
A criança decidiu gritar a plenos pulmões, e eu perdi a paciência e disse-lhe que se era para falar assim, o melhor era ir lá para fora gritar para perto das ovelhas.

Chovia a potes, e o vento soprava como nos filmes.
A Carminho percebeu que tinha ali a deixa, e sentando-se num canto, gemeu: “É a primeira vez, a primeira vez que estou zangada com a avó.” E torcendo a verdade, num tom dramático, contou ao pai, que caiu na asneira de a querer consolar: “A avó disse que eu TINHA de ir dormir lá para fora com as ovelhas!”
Zangada? Comigo? Com o requinte de malvadez de incluir aquele “a primeira vez”, sim, porque a primeira vez em quase cinco anos é muito tempo no pedestal. Resisti a cair como um patinho na armadilha, quer dizer, tentei resistir, porque quando dei por mim estava a justificar-me, a explicar-lhe porque dissera aquilo, a frisar bem que nunca a mandaria dormir ao relento, blá, blá, blá. E ela a manter o ar ofendido e magoado. No dia seguinte houve Festa do Pijama, mas por muito que me empenhasse, tinha consciência de que neste enquadramento de pais e tios, nada chegaria aos pés daquela memória que ela tinha guardado.

São tão hábeis. E nós tão fracas. Sempre a trabalhar para o pódio, sempre em discreta competição com os pais, sempre aflitas de perder o lugar no coração dos nossos netos, à medida que o mundo deles se alarga. Trabalhar para a eternidade dá trabalho. Mas também vontade de rir.

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 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

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