Vive-se sem avós? Vive-se, mas não é a mesma coisa!




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Não me fizeram grande falta os avós, porque tinha pais, sete irmãos, e a Rosa, a cozinheira que estava lá em casa já há quinze anos quando nasci, e que me deu todo o colo de que precisava (e ainda quadradinhos de chocolate amargo, aquele para bolos, guardado a sete chaves na dispensa), mas não suporto a ideia de não ocupar um espaço enorme na vida das minhas netas.


Confesso que os avós não foram muito importantes na minha vida. Não conheci o meu avô paterno, que morreu antes de eu nascer, e vivia da história, contada e repetida, de que na única semana em que estive com o meu avô materno, me sentava ao seu colo (teria dois anos) e procurava caramelos nos seus bolsos. Cresci a olhar para a sua fotografia, de onde me sorria com um ar bondoso, e a imaginar tudo o resto, ao ponto de quase acreditar que me lembrava realmente dele (a verdade é que fiquei sempre a gostar de caramelos!).


Quanto às minhas avós, os meus sentimentos eram absolutamente distintos. Primeiro, havia a minha avó Granny, mãe da minha mãe que vivia em Inglaterra, a quem escrevia (e me escrevia), e que só conheci aos dez anos, mas que face a face correspondeu exactamente à imagem doce e tranquila que sempre tinha feito dela (baseada nos testemunhos de adoração forte, mas discreta) da minha mãe e (ostensiva) dos meus irmãos mais velhos. Morreu um ano depois, e o meu coração apertou-se, não tanto pela minha perda, mas pela perda da minha mãe, e de imaginar que um dia, também eu, iria perder a minha! E depois havia a avó Maria, que vivia a duas ruas de distância de nossa casa, de quem era a vigésima qualquer coisa neta, a que admirava a beleza e a determinação, mas de quem tinha um medo terrível. Parecia preferir os netos às netas, desprezava ostensivamente a minha pieguice, achava-me birrenta e chorona (com razão, provavelmente), e com muita franqueza fazia figas para que não desse por mim. Mais tarde, na adolescência, aprendi a ‘lidar’ com ela, percebendo que era preferível enfrentá-la a fugir, aprendendo a partilhar memórias, fotografias e histórias, e nos últimos anos da sua longa vida, aproximei-me à medida que se tornou mais meiga e os seus olhos, de um azul que sempre se recusou a perder a cor e a força, deixaram de me assustar. Mas, apesar de tudo, foi sempre muito menos minha avó, do que a sua cunhada (e minha tia-avó), que não tinha filhos e me mimava com limonada e jogos de dominó na varanda sobre o rio, ou lendo-me o «Pequeno Lorde» numa edição de capa de couro, que anos depois me ofereceu.


As memórias voltam em catadupa enquanto pego ao colo na Carmo e na Madalena, as vejo todos os dias crescer, e sei que nos meus olhos só podem ler um amor imenso e incondicional, e nos meus gestos só podem sentir a comoção que me provocam. Não me fizeram grande falta os avós, porque tinha pais, sete irmãos, e a Rosa, a cozinheira que estava lá em casa já há quinze anos quando nasci, e que me deu todo o colo de que precisava (e ainda quadradinhos de chocolate amargo, aquele para bolos, guardado a sete chaves na dispensa), mas não suporto a ideia de não ocupar um espaço enorme na vida das minhas netas. Ou de que elas alguma vez passem de fininho para que não dê por elas. Ou que tenham medo de me olhar nos olhos. Só me resta fazer por isso.

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