Comboios, almofadas e previsões do tempo

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“Quem quiser bom conselheiro consulte o travesseiro”

Antes de agires, dorme. Antes de falares, dorme.

Antes de protestares, dorme. Antes de gritares, dorme.



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O senhor comboio

“Quem não muda de caminho é comboio”

Exactamente. O senhor J. tinha um amigo que, quando entrava nas conversas, era comboio: ia sempre em frente sem desvios, sem hesitações, sem ouvir o outro, sem abrandar, sem mudar de caminho nem de opinião.

– Vossa Excelência é um comboio – disse o senhor J. a esse amigo.

E esse amigo, vá lá saber-se porquê, ficou bem contente.

Nunca voltar atrás, nunca retroceder na marcha, é bom se não deixares cair nada e se nunca te enganares – eis o que dizia o senhor J. para si próprio.

Um comboio vai para a frente, mas não vai para trás. Uma vantagem, pensam muitos. Uma grande desvantagem, pensam alguns – os sensatos.


A importância da almofada

“Quem quiser bom conselheiro consulte o travesseiro”

Antes de agires, dorme. Antes de falares, dorme.

Antes de protestares, dorme. Antes de gritares, dorme.

Antes de dizeres que não, dorme. Antes de dizeres que sim, dorme. Antes de dizeres talvez, dorme.

Antes de falares muito, dorme. Antes de ficares calado, dorme.

E assim sucessivamente.

O travesseiro, a almofada, dá bons conselhos. Descansar é, então, uma forma de afinar o nosso ouvido interno; ou melhor: uma forma de afinar a voz sensata que fala para o ouvido que ouve com atenção. E tudo isto, voz e ouvido, no mesmo organismo. Dormir é, em suma, a forma activa de preparar uma acção – eis a definição completamente definitiva do senhor J.

Quando lhe diziam que ele dormia demais, ele respondia:

– Nunca é demais preparar cuidadosamente uma acção.

Mas daí a importância da almofada, diga-se. Almofada dura: conselhos duros, implacáveis: avança, não olhes para trás nem para os lados.

Almofada demasiado mole: conselhos também demasiado moles.

A escolha de uma almofada é a escolha de um mestre. É uma escolha fundamental. Vamos escolher aquilo que nos dará conselhos. Bons ou maus, depende.

E podemos também pensar em ter diferentes almofadas, com diferentes consistências e tamanhos. Quando precisarmos de um conselho duro vamos buscar a almofada dura ao armário. Quando precisarmos de um conselho longo vamos buscar a maior das almofadas ao armário. Almofada pequena: conselho pequeno. Almofada aveludada: conselhos aveludados –  e assim sucessivamente.

Por isso mesmo, é que o senhor J. por vezes demorava longos minutos, ou até horas, a escolher a almofada certa para a noite daquele dia. Por vezes, no limite, a manhã estava já a começar e o senhor J. ainda hesitava na escolha da almofada certa para a longa noite de conselhos de que ele necessitava.

Tinha umas olheiras grandes, o senhor J., mas estava – como ele dizia – muito bem aconselhado.


Chove no dia em que devia fazer sol

“Quem quer mentir fale do tempo que há-de vir”

Isso, o senhor J. já tinha reparado: quando alguém prevê o tempo acerta umas vezes e falha outras.

O clima é imprevisível e prever o imprevisível era uma actividade que sempre fascinara o senhor J.

– Amanhã afinal não choveu – era o que dizia o senhor J., em plena destruição dos tempos verbais, quando queria mostrar até que ponto as previsões sobre o tempo falhavam.

Prever o previsível era, apesar de tudo, mais sensato.

O senhor J. costumava então dizer:

– Depois de 3ª feira, 4ª. Depois de 4ª, 5ª.

E sobre o tempo que ia fazer amanhã: nem uma palavra, nem uma.


Por vontade do autor, este texto é publicado segundo as normas do antigo acordo ortográfico.


Texto publicado na Revista Pais&filhos de setembro de 2013



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