Enrique Pinto-Coelho

Filhos: um, dois ou nenhum

Escrito por Enrique Pinto-Coelho Quarta, 19 Setembro 2012 | Visto - 7093


 

«Sou uma super mamã feliz»

Escrito por Enrique Pinto-Coelho Terça, 04 Setembro 2012 | Visto - 3620

pai = mãe - Crónica de janeiro 2011


Quando o teste de gravidez que tinha comprado semanas antes desenhou o símbolo + numa pequena janela de plástico, os meus biorritmos não se alteraram demasiado. Esperava batimentos acelerados ou uma descarga de adrenalina, mas o que senti foi a serenidade e o alívio que as boas notícias trazem.
Para já, confirmava que sou fértil, uma dúvida antiga que ronda a cabeça da maioria dos homens. Mas o + anunciava sobretudo que ia ser pai com a pessoa certa na altura certa.
Era sábado e o sol brilhava. A novidade aterrou suavemente na casa de campo de um casal amigo, e passámos aquela primeira noite grávidos a festejar e a fazer listas de possíveis nomes pró menino ou prá menina.
Nas semanas seguintes, as coisas complicaram-se. Apesar de desejada, a criança levantava questões delicadas e complexas. Para começar, a futura mãe do meu filho nunca teve a certeza de querer ter um. Receava não ter a paciência e a dedicação necessárias e suspeitava, não sem razão, vir a perder a independência e o estilo de vida que tanto preza.
Em parte por isso, no primeiro trimestre de gravidez era eu o mais entusiasmado. Aproveitei uma visita a Madrid – a minha cidade natal – para comprar o livro «Vamos a ser padres» e uma revista que oferecia a promissora obra «Supermami. Mil maneras de ser una mamá feliz». Uma amiga emprestou-nos «Grávida – Livro de instruções» e a minha mãe ofereceu-me o celebérrimo «Método Estivill», que demorei apenas uma tarde a deglutir.
A minha transformação em doula, lenta mas irreversível, tinha começado mesmo antes de conhecer o conceito. Graças aos livros, conseguia antecipar-me às dúvidas e as necessidades da gestante. Eram, salvo excepções, coisas simples – como as melhores zonas para aplicar o creme anti-estrias, as causas da sonolência ou truques para relaxar as pernas – mas que tinham, e têm, grande efeito junto do público feminino, pouco habituado a encontrar em nós este tipo de atenções e subtilezas.
Memorizei a correlação entre as semanas de gestação e o tamanho do feto na versão fruta (uva, laranja, meloa, etc.) e especializei-me nas complicadas contas do calendário do embrião. Nas consultas, as minhas listas de perguntas eram maiores e mais rebuscadas que as dela, e cheguei a corrigir, ou a pôr em causa, afirmações de obstetras e ecografistas altamente qualificados.
Acumulei tanta informação e uma tal reputação – obviamente exagerada – que passei a ser conhecido como «babypedia». Na praia, enquanto ela lia mais um calhamaço do Proust, os meus novos hábitos literários despertavam comentários ternurentos nas mulheres e olhares ferozes nos homens, alarmados com as potenciais consequências da minha solidariedade.
«Não ponhas a fasquia tão alta», suplicou um dia o meu amigo G.P, pai de duas crianças, ao ouvir uma das minhas tiradas. «Estás a lixar--nos a vida a todos».
Encolhi os ombros. Às tantas, dei por mim a fazer dieta de grávida, a beber cerveja sem álcool e a olhar para as montras da Pré-Natal perante a aparente indiferença da verdadeira mãe. Não a censuro. Já lhe chegava ter de lidar com a progesterona, a transformação corporal e a proximidade do parto. E, se tivesse dúvid

   

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Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

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