“Las bicicletas son para el verano”

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De regresso ao Ebro e à nossa casa emprestada, conseguimos realizar o ideal sonhado ao longo do ano e (quase) sempre adiado ou encurtado: passar tempo de qualidade juntos, brincar sem distrações nem restrições


Escrevo horas antes da estreia do Guilherme na educação primária. Passou o verão excitadíssimo, a pensar nos “trabalhos de casa” que aí vêm e a fazer todo o tipo de contas e contagens: de um a 241, até ficar sem fôlego; os dias que faltam para fazer seis anos; a idade dos pais, primos, tios... e a de seres quase lendários como o bisavô Abílio, que já tem 89 anos. “Oitenta-e-nove-anos! Uaaau.”

Além de fazer somas simples e as primeiras subtrações, esteve a memorizar os dias da semana em espanhol (em português raramente se engana, mas tende a ignorar o “viernes” e a trocar a ordem de “miércoles” e “jueves”). Também aproveitou as férias para ler muito – devagar, em voz alta, mas com poucos erros. O mais misterioso é que, nas suas leituras monocórdicas e sem pausas, consegue acertar na maioria dos acentos.

Aproveitámos um dos passeios que fizemos por Espanha para reforçar o arsenal de livros em castelhano para leitores “a partir de” cinco e seis anos. Ele escolheu “Javi y los leones” e eu acrescentei “El gran doctor”, que conta a vida de um veterinário, tem o dobro das páginas e as mesmas letras garrafais.

Foi numa livraria em Salamanca, perto da dourada catedral. Também passámos por Valladolid, onde jantámos como príncipes (apesar de o Guilherme não gostar de metade das tapas, o que me deixou algo desconsolado) e ainda pela Cantábria, durante quase uma semana que as crianças não vão esquecer.

Ficámos numa casa enorme e maravilhosa só para os quatro, emprestada por amigos que afinal não puderam vir. Uma antiga “casona” em pedra mas totalmente remodelada, com chaminé, vistas para o rio Ebro, uma horta nas traseiras e um sossego quase irreal.

Um dia fomos visitar outros amigos que estavam perto da costa e atravessámos toda a região, descobrindo pelo caminho o motivo do sobrenome da Cantábria (também conhecida como “La Montaña”) e iguarias locais como os “sobaos”, uma espécie de madalenas quadradas e achatadas. Os nossos anfitriões agasalharam-nos com mais tapas a uma hora bem espanhola: entre as três e as quatro da tarde. À noite, mostraram-nos o “cinema mágico” – um simples projetor e um écran portátil, mas ainda assim “mágico, porque as crianças desaparecem”. Contudo, a sensação da jornada foi o “pilla pilla”, uma mega apanhada que envolveu vários veículos, risos histéricos e a destruição de qualquer expectativa de sossego no mais silencioso dos vales cantábricos.

De regresso ao Ebro e à nossa casa emprestada, conseguimos realizar o ideal sonhado ao longo do ano e (quase) sempre adiado ou encurtado: passar tempo de qualidade juntos, brincar sem distrações nem restrições. Uma noite decidimos jogar Monopólio e percebemos o quanto é útil para aprender cálculo, mas também o muito que pode durar quando os jogadores enumeram, a cada vez, os pontos dos dados e as casas a avançar.

O jogo teve de ser interrompido às tantas e só terminou na noite seguinte. Na véspera da partida, o Guilherme obrou um milagre: aprendeu a andar de bicicleta (sem rodinhas) em pouco mais de meia hora! Beneficiou dos empurrões e das dicas de três adultos, mas ainda assim. O prodígio evocou-me o filme que dá título a esta crónica, baseado numa obra-prima de Fernán-Gómez (que o Guilherme só irá conhecer, provavelmente, no ensino secundário ou na faculdade).


Crónica Pais&filhos outubro 2016


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