"Eu queria ser campeão..."

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Nestes escalões, a maioria dos campos não tem barreiras e é possível ver os lances de perto, ouvir o que dizem jogadores e adeptos. Mesmo tratando-se de futebol infanto-juvenil, o que se escuta, por vezes, não é bonito


Futebol e mais futebol. Seja por questões profissionais, familiares ou fortuitas, é cada vez mais difícil fugir à omnipresença do desporto-rei. Em particular, num país quase sem imprensa local e regional, mas com três jornais desportivos extremamente populares (na verdade, mais futebolísticos do que desportivos, uma vez que as outras modalidades juntas somam 10% dos conteúdos, se tanto).

Como se não bastasse, Portugal é um dos epicentros do mercado internacional de transferências, um exportador cujo papel nesta área (dominada pelo agente Jorge Mendes, outro português “melhor do mundo”, a par de CR e Mourinho) reforça outra ideia bastante popular: a do “pequeno Brasil da Europa”. O futebol enche a vida portuguesa mais do que os produtos da famosa loja, está nas prateleiras das casas e dos bares, nas ruas e até nos editoriais da imprensa generalista, reutilizado como metáfora para explicar as relações internacionais e outros assuntos mais sérios ou impenetráveis. A “futebolite” é tão aguda que são raros os comentadores da política ou da economia nacional que não fazem também uma perna (ou duas) n’O Jogo, n’A Bola ou no Record para defender ou criticar o “seu” clube ou seleção.

Desde há vários anos, acompanho as evoluções de um “Mundial de Futebol Juvenil” de origem portuguesa que, entretanto, conseguiu expandir-se por seis países de três continentes (em 2017 haverá etapas na Escandinávia, nos Estados Unidos e, pela primeira vez, na Polónia e no Japão). Os torneios são disputados por jogadores dos nove aos 16 anos, mas também envolvem treinadores, equipas de arbitragem, voluntários e centenas – provavelmente milhares – de pais e simpatizantes.

Nestes escalões, a maioria dos campos não tem barreiras e é possível ver os lances de perto, ouvir o que dizem jogadores e adeptos. Mesmo tratando-se de futebol infanto-juvenil, o que se escuta, por vezes, não é bonito: “parte-lhe uma perna, filho!” ou “árbitro filho da p...” são frases captadas à volta das quatro linhas. Nas fases mais avançadas das competições, sobretudo nas categorias de maior idade (mas não só), chega a haver agressões físicas entre equipas ou contra os árbitros, que às vezes são tão jovens quanto os jogadores.

Tal como a maioria daquelas crianças, eu também sonhei com ser futebolista profissional a dada altura. O meu pai era fã do Real Madrid e fui muitas vezes com ele ao estádio, mas também ia nas férias com os meus tios, sportinguistas ferrenhos, ao antigo José Alvalade. No início, não percebia nada do que se passava no relvado, mas assobiava quando ouvia assobiar e festejava quando os outros o faziam.

Gradualmente, começou a aterrar-me o fanatismo e a irracionalidade de boa parte dos aficionados – e, em parte por isso, deixei de gastar dinheiro em futebóis por volta dos 20 anos (o preço exorbitante dos bilhetes não terá, certamente, ajudado). Décadas mais tarde, também não quis que o meu filho se tornasse adepto de uma equipa, mas também nada fiz para o impedir, o que me causou alguma impotência perante o proselitismo de alguns amigos e familiares.
Desconfio que a minha intervenção pouco ou nada teria modificado. O Guilherme escolheu livremente e, embora não pareça prematuramente obcecado, receio que está condenado a sofrer, como bom português de leão ao peito.


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