Na ria formosa

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A primeira surpresa no areal, contudo, foi uma música pungente transportada pelo vento das três da tarde.

Chegámos numa tarde resplandecente, no último dia da canícula (em teoria, o período do ano em que está mais calor, de 15 de julho a 15 de agosto). Nessa manhã acordara ainda longe, na Carrapateira, depois de uma primeira quinzena de férias sem filho transitada entre ondas gigantes, percebes e coquetéis exuberantes.
No dia do reencontro, ou da estreia das minhas duas semanas com o Guilherme, apareci no Barão de São Miguel – refúgio estival da mãe – por volta do meio-dia. Encontrei uma criança com mais um palmo de altura e a pele da cor da alfarroba, cabelos aloirados e crostas nas pernas arranhadas pelas coçadelas. Malditos mosquitos.
Carregados de malas e projetos de aventuras abalámos, finalmente, em direção à Ria. O passageiro do banco de trás adormeceu num ápice e por isso não sofreu a Via do Infante, semivazia mas pejada de portagens eletrónicas. A primeira paragem foi Pinheiro, numa casa de cair para o lado na primeira linha de ria, literalmente a dois passos do lamaçal.
Almoçámos como príncipes com os nossos anfitriões e a seguir cruzámos pela primeira vez o braço de mar, numa Zodiac impulsionada por um motor de quatro cavalos, lento como as marés mas eficiente na modorra das férias. Do outro lado do sapal, os nossos amigos detinham um toldo permanente: paraventos, cadeiras, guarda-sóis... para quê ir e vir carregados se não costuma haver ninguém num raio de centenas de metros?
A primeira surpresa no areal, contudo, foi uma música pungente transportada pelo vento das três da tarde. O epicentro do terramoto sonoro resultou ser um pandemónio de contornos míticos que evocava as pândegas ininterruptas de «Cem anos de solidão». As rajadas de pagode, axé ou forró forjado no Inferno sepultavam qualquer hipótese de comunicação com dois homens que viravam um bezerro num espeto oxidado – os interlocutores que tinha escolhido para imprecar menos decibéis. Um bêbedo de “bejeca” na mão aproximou-se com uma pá para bater no intruso, mas a sorte quis que umas bacantes, mais sensíveis ao meu pedido, intercedessem afastando o perigo. O resto da tarde foi um prenúncio do que a Ria nos reservava: horas de brincadeiras na areia, banhos quase mornos, um pôr do sol cinematográfico.
No dia seguinte partimos de novo à procura de alojamento perto de Tavira. Após descartar dois parques de campismo, encontrámos – obrigado, Custo Justo – uma casa cercada de figueiras, oliveiras e laranjeiras, uma pechincha a 30 euros por noite justificados pela pobreza franciscana e as espirais adesivas repletas de moscas penduradas do teto.
Nos dias seguintes experimentámos a praia do Barril, de difícil acesso, e mais tarde a da Terra Estreita, onde fizemos novos e bons amigos. Junto ao bar, Luís, mariscador sexagenário, montava diariamente uma banquinha com ostras recém-apanhadas a cinco euros a dúzia, abertura e nacos de limão incluídos.
Mas o ponto alto – pelo menos para o Gui – foi a noite em que dormimos ao relento, numa duna previamente selecionada entre a ria e o mar. Protegidos do vento e de eventuais olhares indiscretos, montámos a tenda e a seguir erguemos uma grande (e segura) fogueira alimentada com paus e outros objetos recolhidos nas imediações. Os milhares de mosquitos foram compensados pelos milhões de estrelas.

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