Não quero ir ao infantário!

alt




Chega o dia de escrever a crónica e habitualmente tenho dúvidas. Não estou a falar do famoso pânico da folha em branco, falo do problema oposto: a dificuldade para escolher um assunto entre tantos possíveis. Isto acontece porque as crianças são como a Índia, pelo menos num certo sentido: num minuto passam-se milhares de coisas, num dia podem ser milhões. Ao cabo de um mês, acumulam tantos acontecimentos como uma rua de Mumbai ou Nova Deli numa hora de ponta. Outro ponto em comum é a infantilidade de muitos indianos – os indianos que não o são que me perdoem, mas a minha maravilhosa experiência pela costa ocidental do subcontinente mostrou-me um universo adulto de sorriso fácil, perguntas cândidas e repetitivas e atitudes dignas de infantário.


E era precisamente disto que queria falar: do primeiro mês do Gui numa pré-escola. Para já, teve muita sorte porque conseguiu ficar em casa quase até fazer dois anos. Passou os primeiros 12 meses no colo do pai e da mãe, que obteve uma longa licença de parto suplementada com folgas e férias em atraso. Desde muito cedo contou também com os cuidados intensivos – quase obsessivos – da avó materna, que redescobriu o sentido da vida com a ajuda do neto. O segundo ano não foi muito diferente. O pai em casa (onde tem o escritório), a avó a tomar conta dele várias vezes por semana e a mãe quase sempre por perto antes e depois de ir trabalhar. Um luxo.


Consta que, nos primeiros anos de vida, o mais importante é cuidar os afetos, e por isso há quem recomende não levar as crianças para a creche antes dos três anos. O Gui resistiu até aos 22 meses, mas no dia 7 de setembro passou finalmente o Rubicão, que neste caso está no beco da Bicha.


Foi numa sexta-feira e as primeiras impressões foram muito positivas. Entrou na sala dos dois aos três anos espalhando charme e abraços, entusiasmado pela abundância de pares e cores, brinquedos e murais, móveis apropriados ao seu tamanho, janelas decoradas, estantes carregadas de livros, redes com bolas, cubos e legos. Um pequeno paraíso!


Na segunda-feira seguinte não houve nenhum drama, mas começou a desconfiar. Ao terceiro dia caiu-lhe a moeda: a creche era a nova rotina, tinha acabado o aconchego permanente do lar. Começou a protestar: «Não quê mai, não quê mai». Na rua, mudava logo de cara quando percebia que estava a caminho do jardim-de-infância (que na verdade não tem jardim nenhum, apenas um pátio caiado com escorregas e outros brinquedos de plástico).


Felizmente, habitou-se depressa à nova realidade e já quase nunca protesta. Às vezes ainda chora quando vê outras crianças em lágrimas e agarra-se às pernas de quem o levou até à sala de aula, mas cada vez menos. Aceita de bom grado ir para o colo da educadora e quando o vamos buscar está sempre entretido e integrado. Prova superada, portanto. Os efeitos também se notam em casa e no parque: dá mais atenção aos brinquedos, constrói torres mais altas e blocos de construção mais complexos, faz mais desenhos. Entretém-se melhor sozinho e diverte-se mais com os outros.


O melhor é que ainda não começou a sofrer os badalados “efeitos colaterais” da vida no infantário: as temíveis doenças. Mas é cedo para cantar vitória. O outono mal começou e o inverno espreita ao virar da esquina.


Crónica da Revista Pais&filhos 262 - novembro de 2012.


Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais