Eduardo Sá

 

Desespero em silêncio

Escrito por Eduardo Sá Quarta, 03 Outubro 2012 | Visto - 8746

Se a epidemia de gripe mereceu meios, a violência que a escola assinala - seja a que se dá em meio escolar, seja a que ela detecta - devia exigir uma provedoria da escola. 


 

Juramento dos amigos da escola

Escrito por Eduardo Sá Domingo, 23 Setembro 2012 | Visto - 6432

Eu, abaixo assinado, declaro, solenemente, que lutarei para que uma sociedade aberta ao conhecimento, não se construa à margem da pergunta e da diferença, nem das histórias, do brincar ou da conversa. Porque uma escola que fratura humanidade e conhecimento (ou que divide os alunos, distinguindo os diferentes dos iguais ou os que aprendem dos que têm necessidades educativas especiais) ouve mas não escuta, exige atenções mas é desatenta. E, sendo assim, reclama-se inclusiva mas não será acolhedora.

E, declaro ainda, que lutarei (até que vença) para que se reconheça - com respeito pela dignidade das pessoas e pelo futuro - que o melhor indicador de sucesso educativo não é, nem nunca foi, a empregabilidade, mas que será, para sempre, a sabedoria. Se a empregabilidade representa uma visão de mundo, onde os valores do dinheiro fazem com que a paixão seja pilhada e capitule, só quando sabedoria e trabalho se casam um com o outro, ligam a humanidade dos gestos, a ousadia de nunca se deixar de perguntar «porquê?», a lealdade de interpelar e de contrapor, o arrojo de pensar e a clarividência de empreender, que distinguem quem ama (a vida, as pessoas e o conhecimento) daqueles que, tenham os sonhos que tiverem, se resignam a ser, mansamente, adaptados.

Eu, abaixo assinado, comprometo-me solenemente a estar distraído sempre que um professor não tiver um jeitinho especial para me render aos encantos do que ensina. E que farei por exigir autoridade a quem, somente, exiba disciplina. E declaro, ainda, que, honrando isso, tudo farei para me insubordinar contra todos aqueles que confundem democracia de oportunidades com mediocridade e sucesso educativo com exigências minimalistas (que, ao adoçarem as notas, mentem sobre a forma como todos temos, premeditadamente, descuidado a educação). E declaro, por fim, que lutarei por demonstrar que aprender com gosto é e fácil e é bonito, mas que o rendimento sem alma é humilhante e um embuste.

E comprometo-me a reconhecer que a escola jamais será, unicamente, um local para desenvolver (algumas) competências mas que ela serve, sobretudo, para nos educarmos uns aos outros. E, só depois, para aprender. E que, sejam quais forem as circunstâncias em que o exijam, nunca irei pactuar com essa vertigem esquizofrénica que acarinha quem repete e que castiga quem copia.

Eu, abaixo assinado, declaro solenemente que a escola é um formidável complemento aos cuidados da família e reconheço que muitos professores, pela bondade e pela sabedoria com que nos iluminam, dão mais crédito ao desafio do crescimento que muitos tios e que muitos pais. E que, por isso mesmo, serei, para sempre, contra toda a educação que se dirija mais para a vaidade do que para a admiração, onde as pessoas, depois de aprenderem, sejam mais facilmente instigadas a reconhecerem os enganos dos outros do que a aprenderem com os seus, e a subtrair (qualidades) do que a fazer a diferença. Porque um mundo que acarinha as aparências em prejuízo da integridade (um mundo onde a demagogia inquina a política ou o populismo enviesa a justiça) mascara e mente mas não admira e não aprende. E um mundo assim terá na escola, para sempre e por amor à verdade, um adversário que jamais se deixará vencer.

E comprometo-me ainda a empenhar-me para que pontos de vista contraditórios nunca nos deixem de encaminhar para sínteses íntegras, simultaneamente mais complexas e mais simples, mais singulares e mais plurais, que não favoreçam a exibição do conhecimento mas que o desafiem para a clarividência diante das dúvidas (e que reconheçam, com humildade, que tem faltado fé ao conhecimento - fé nas pessoas e fé no futuro - e que conhecimento sem boa fé não é conhecimento mas, antes e só, obscurantismo).

Por tudo aquilo que acabei de ler, que será objeto de juramento e que irei assinar, declaro estar unicamente disponível para o regresso às aulas (porque a escola são todos os lugares onde há quem nos ensine que quem aprende com os erros nunca foge às responsabilidades. E que só assim se admira, se é íntegro, se aprende e se educa).








   

Pede um desejo

Escrito por Eduardo Sá Sexta, 07 Setembro 2012 | Visto - 17324

Precisamos de pessoas que sejam o nosso horizonte.


   

O melhor do mundo é o futuro

Escrito por Eduardo Sá Segunda, 27 Agosto 2012 | Visto - 13901

As crianças não são verdadeiras ou falsas: são Amadas ou descuidadas. Precisam de se chegar a quem se chegue a elas, através de um mesmo adivinhar. Quando isso não acontece, tornam-se enfadonhas.




   

Manifesto contra as histórias

Escrito por Eduardo Sá Quinta, 09 Agosto 2012 | Visto - 20293

Crónica do psicólogo Eduardo Sá.


   

O Banco do Tempo

Escrito por Eduardo Sá Segunda, 30 Julho 2012 | Visto - 13283

1.Sou contra o direito à greve! Não contra o direito a todas as greves, é claro, mas contra as greves em que as famílias vivem há tempo demais. Greve aos fins-de-semana, greve às tardes de sábado com chá e torradas, greve às visitas aos amigos e greve às viagens. Greve aos gestos de carinho, greve à tagarelice e greve aos mimos. Greve às perguntas embaraçosas e aos porquês. Greve ao direito de andar nas nuvens e ao brincar. Greve ao «já te disse hoje que gosto de ti?». Greve aos abraços e às festinhas. E greve ao direito de deitarmos a cabeça num colo de confiança e ao direito de, quase sem querermos, fecharmos os olhos, de seguida.

 

Às vezes, este estado (entre a greve de zelo e a greve geral) das famílias, parece ser resultado dum grupo de especuladores que têm dominado o Banco do Tempo. Passo a explicar…Na verdade, todas as actividades laborais compram o nosso tempo. Mas especulam, de seguida, como se fossem donos dele, vendendo-o devidamente tributado com taxas, pagamentos por conta e com índices de risco. Às vezes, os espeuladores do Banco do Tempo vendem-nos o direito a habitar o nosso coração como se ele deixasse de ser nossa propriedade e se transformasse numa espécie de time sharing onde a inflação fossemos nós.


2. Como parece acontecer muito por aí, também a dívida pública familiar ao Banco do Tempo não pára de aumentar. E, para lhe fazerem frente, as famílias oferecem juros tentadores aos filhos quando eles não reclamam a devolução das economias de tempo que confiam aos seus pais. A liberalização das taxas de juro tem sido de tal ordem que, para os filhos, os juros a seis meses no Banco do Tempo chegam a valer um novo modelo de telemóvel, topo de gama, acompanhado por saídas dois dias por semana, sempre até mais tarde. E há pais que, comprometidos pela gestão dos activos no Banco do Tempo que realizam, oferecem – desde muito cedo – juros a 10 anos que fazem com que as crianças pareçam   magnatas das más maneiras e passem de principezinhos a pequenos ditadores, de modo a que nunca sejam tributadas quando gritam num restaurante, enquanto chapinham nos pratos da sopa. Às vezes estes pais, pelo modo como moralizam a vida dos outros (enquanto encolhem os ombros e sorriem, embaraçados, entre birras que vão dos acepipes à sobremesa) fazem lembrar alguns economistas que nunca antecipam as
crises mas que não perdem uma oportunidade para as comentar, como se os nossos recursos para a compreensão do mundo precisassem
deles para os transformarem no FMI da nossa sensatez. Acredito que estes pais que dão juros de muitos por cento ao mês acreditem que os
fi lhos acreditam que eles serão a Dona Branca dos pequeninos. Numa versão mais urbana e mais clean, eles acham que a industrialização
educativa se combate com paraísos fiscais de regras. É claro que o sucesso do liberalismo com que se opõem à sua má gestão do Banco
do Tempo faz com que, no final, os responsáveis pelo inferno da sua política educativa nunca seja de quem a executa mas, simplesmente,
dos… mercados.

 

3. Ora, deve ser por terem trocado Deus por um Estado que pensa por elas, que as famílias foram aceitando este totalitarismo esperarem que o Estado pense por eles que os pais se vão vergando a uma ideia industrial de crescimento como se cada pessoa fosse um Ford T e o direito a construir a vida de forma artesanal violasse a normalização dos projectos e dos sonhos que alguns moralizadores escolhem para nós.

 


4. As crianças são quem mais, felizmente, boicota o direito à greve dos pais que, geralmente, uns em relação aos outros, vivem (geralmente) em serviços mínimos. As crianças são quem mais, felizmente, se insurge contra esta discrepância de direitos entre os pequenos e os crescidos. E com toda a razão! Quando os pequenos não comem a sopa há quem o considere uma violação do acordo colectivo das famílias; quando os pais a evitam isso está previsto nas respectivas cláusulas de excepção. Quando as crianças dizem asneiras isso merece sanções e coimas; quando elas são ditas pelos pais isso tolera-se como se, dum momento para o outro, eles se transformassem num sindicato dos juízes. Quando as crianças
ficam agitadas são hiperactivas; sempre que os pais ficam insuportáveis é porque são vítimas do stresse.

Ora, entre défices do Banco do Tempo e as cláusulas de excepção nas relações entre os filhos e os pais, resta às crianças seguirem o exemplo dos pais. E fazerem greve.

Proponho, pois, que – no próximo ano – o direito à greve esteja previsto do código do direito das crianças. Greve ao trabalho infantil, digna da revolução industrial, que faz com que as crianças trabalhem 12 horas por dia cinco dias por semana. Greve à descapitalização da sabedoria das crianças que entram no jardim-de-infância sábias e singulares e saem das universidades mestres por grau académico, bolonhentas, normalizadas e enfadonhas. E greve à ideia de que a escola não serve para educar para valores como a solidariedade e o trabalho, para a tolerância e para compaixão mas, somente, para a tecnocracia do pensamento e para a burocracia das ideias. Greve às aulas de substituição, sempre que elas forem uma forma de as manter distraídas, e greve às aulas se elas não forem acompanhadas por recreios. Greve aos trabalhos de casa, sempre que isso os transforme numa espécie de confederação inimiga do direito a brincar. Greve ao respeito pelos adultos, sempre que eles pareçam divididos entre alguns conselhos como «precisas de te distrair» e as epidemias atípicas de défices de atenção em que acreditam.


5.As crianças, no próximo ano, têm direito a ser crianças. E a terem quem olhe por elas. E a reconhecerem na família quem melhor interpreta o seu interesse superior. E a terem quem lhes diga «mostra que sabes dançar!» de cada vez que lhes exige que tenham opinião. E a serem  resmungonas. E dorminhocas. E a actuarem só para os pais no meio das centenas de olhos das pessoas da festa de Natal. E a terem dores de barriga sempre que a escola as empanturra de conhecimentos sem as considerar singulares e sem lhes perguntar «porquê?».

As crianças, no próximo ano, têm direito a proibirem todas as greves de zelo de todas as famílias. O que só se começa quando, no Banco do Tempo, não houver direito a especuladores, nem a liberalismo de regras nem a direitos diferentes para responsabilidades iguais.

   

Não gosto é do verão!

Escrito por Eduardo Sá Sexta, 27 Julho 2012 | Visto - 17062

Crónica do psicólogo Eduardo Sá.


   

Tá-se bem!

Escrito por Eduardo Sá Quinta, 12 Julho 2012 | Visto - 7951

Crónica do psicólogo Eduardo Sá.


   

O melhor do mundo são os adultos

Escrito por Eduardo Sá Terça, 10 Julho 2012 | Visto - 7173

1. Não gosto de quem continua a considerar a adolescência como a «idade do armário». Suponho que quem o faz quererá ser, sobretudo, enfático para com a afirmação, às vezes impulsiva e atabalhoada, de pontos de vista ou de convicções que muitos adolescentes levam por diante ao pé dos pais ou dos professores. «Sair do armário» tem, regra geral, um tom depreciativo. Supõe que todas as afirmações dos adolescentes não fogem dum certo tom «armado» com que muitos adultos, que guardam «esqueletos no armário», os classificam (com enfado) e os censuram, sem nunca legendarem os seus gestos.


E, já agora, não gosto daquilo que se escreve sobre os adolescentes. Quando se dá importância aos riscos que correm, quando se fala (sobretudo) de consumos, de depressão ou de anorexia, ou quando se devaneia sobre tudo aquilo que lhes falta. E quando, quase nunca, se refere a sua saúde ou o modo como tentam ser autênticos e generosos, e como vivem num desamparo tão imperceptível aos olhos de quem devia olhar por eles.


Para muitos adultos, os adolescentes são uma «geração rasca». Uma versão actualizada dum narcisismo do género: «depois de mim, só o dilúvio!». Aliás, recentemente, o alarme foi dado quando se referia que os adolescentes não sabem interpretar textos ou elaborar raciocínios, como se a escola alertasse para anomalias que ela própria não tivesse vindo a acarinhar. E como se os pais dos adolescentes reunissem essas competências e fossem prolixos, expressivos em relação a tudo aquilo que pensam, afoitos na forma como seleccionam as companhias, claros nos gestos que distribuem e certeiros nos seus actos.

2. A adolescência termina aos 18 anos? Não! Reconheço a sensatez da Organização Mundial de Saúde, ao considerar que a adolescência se estende até lá. A ideia passa por considerar que um crescimento prolongado e protegido, com um investimento cada vez mais longo na escola e por uma responsabilidade parental concomitante, é amigo da saúde e do futuro. E que um crescimento assim representa, a priori, uma menor exposição a episódios traumáticos que fazem com que se passe directamente dos traumatismos da infância aos sofrimentos com que eles nos precipitam, muito cedo, para inúmeros «tarde demais». 


É claro que tem de existir um limite, mais ou menos convencionado, para a adolescência. E, sendo assim, é razoável que se considere que ela se estende entre as transformações psicológicas de adaptação à sexualidade, da puberdade, e a maioridade. Mas, ao mesmo tempo, não podemos perder de vista que os pais são, hoje, inequivocamente, melhores do que seriam há uma ou há mais gerações atrás (o que fazia com que esse modelo autoritário de educação transformasse qualquer adolescente num Tom Sawyer e cada relação familiar num conflito de gerações). E que são, felizmente, muito mais escolarizados, o que faz com que a sua autonomia se faça sentir mais perto dos 30 anos (como um patamar superior dum processo que se aprofunda com a entrada no mercado de trabalho). Isto é: será, hoje, mais realista admitir que a adolescência vai da puberdade aos 30 anos. O que, a meu ver, nos permite desparasitar este longo período duma certa ditadura de leituras inflamadas em torno da adolescência, passando a co-responsabilizar os pais e os adolescentes pelas atitudes que uns e outros têm entre si.


É claro que podemos tentar encontrar um outro limite, menos formal, para a adolescência. Disse, noutras circunstâncias, que nos tornamos adultos quando deixamos de assumir que temos uma história mas quando, empenhadamente… somos uma história. Isto é: quando, apesar dos conflitos que as relações nos merecem, as articulamos num todo compreensivo, assumido por nós, que nos dá um rasto de experiência e a resgata numa ideia de futuro. Escuso de dizer que, para muitos, a adolescência terminaria com a sua própria experiência de parentalidade ou, doutra forma, com a morte dos seus pais. O lado condicional duma afirmação dessas relaciona-se com a convicção de que nem assim se ligam pessoas, relações e histórias num projecto de vida, gerido por si. Desconfio, portanto, que sejam raríssimas as pessoas que, aos 30 anos, se tornam adultas. E, mais, quero com isso dizer que a maioria dos adultos está longe de o ser, por dentro. Mesmo quando são pais. Mas, para não complicar em demasia o desafio de definir entre que limites se compreende a adolescência, irei resignar-me a considerar, para esse efeito, a puberdade e os 30 anos. Não lhe irei chamar adultescência, como alguns. Porque não me parece que os adolescentes e os adultos mereçam tamanha (e tão deselegante) condescendência.

3. Gosto da ideia de que, crescendo, nos tornamos adultos. Não no sentido de ficarmos crescidos mas de nos tornarmos capazes para crescer. E de sermos sábios e amáveis. Apaixonados e reconhecidos. Não acho – portanto – que o melhor do mundo sejam as crianças. Nem acho que, diante de tudo isto, os adolescentes valham o encantamento imberbe que têm merecido, vezes demais. Mesmo sendo poucos (mas muito poucos), o melhor do mundo são os adultos..

   

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Editorial.

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