Eduardo Sá

 

O lado b dos pais

Escrito por Eduardo Sá Domingo, 18 Setembro 2011 | Visto - 14099

Não é verdade que os pais gostem sempre dos filhos e, sobretudo, que gostem de todos por igual. O que se passa para que, ao contrário do que desejam, pareçam preferir um a outro?

1. Se há o País do Natal e a Terra do Nunca o ordenamento territorial do planeta da infância devia prever um lugar para os pais. Um pedaço de terra sempre lhes daria outra credibilidade. De certo modo, logo haveria de se tornar numa incubadora de pais e não correriam o risco de ser apanhados desprevenidos, quando alguém se lembrasse de certificações comunitárias e formações só para eles. É claro, o lugar dos pais teria de ser entre o céu e a terra! Só assim se compreende que, sempre que imaginam os pais, as crianças os empurrarem sempre um pouco mais para o céu. Ou é porque o pai é tão grande, tão grande – aos olhos das crianças – que, com mais ou menos jeito, o supõem capaz (qual arranha-céus) de tocar as nuvens; ou porque, como Deus não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, esperam que a mãe (num sereno piquete) nunca deixe de estar. Ou, finalmente, porque os supõem a não se deprimir, a nunca ter medo e a jamais se cansarem.

2. Deve ser por isso - suponho eu - que, sempre que os pais sentem seja o que for, a propósito dos filhos, todos lhes exijamos que contem até três, antes de sentirem, e arredondem todos os sentimentos até à casa das milésimas. Ora, apesar da sua enorme bondade, os sentimentos dos pais pelos filhos nunca são perfeitos. E, pior, em muitos deles, têm um lado b, mais ou menos secreto e doloroso. Vejamos alguns desses recantos mais sombrios que existem nos pais…
Não é verdade que uma gravidez seja, quase sempre, um «estado interessante» e que a barriga pesada não se torne, de vez em quando, enfadonha e cansativa. Por mais que se queiram enamorados por um bebé, para muitos pais ele chega fora das horas marcadas e cai, qual turista acidental, no meio de brigas assanhadas, de divórcios que se constroem, silenciosamente, por mútuo consentimento, ou como elo mais fraco entre pais outrora cúmplices e, agora, estranhos.
Não é verdade que o bebé seja sempre um menino Jesus. Nalgumas vezes, no meio da ira insatisfeita de um bebé, o instinto materno vai de férias (por minutos) e fica à solta um lado b, feito de pensamentos feios, de berros intempestivos ou de abanões.
Não é verdade que, sempre que são, repetidamente, acordadas, as mães desçam do paraíso até ao berço. Por vezes, são – simplesmente – automáticas na forma como amamentam ou mudam a fralda (por exemplo) e, pior, resmungam, rezingam e…  assustam.
Não é verdade que a licença de trabalho, após a gravidez, sejam férias de parto. Todo esse tempo tem momentos demasiado solitários, de liberdade condicional, de dor e depressão, que magoam pela intolerância que suscitam nos outros, como se não fosse compreensível outro estado de espírito da mãe que não fosse um olhar-zen para o bebé, pelo meio de gestos sempre ternurentos, amorosos e idílicos.
Não é verdade que os pais gostem sempre dos filhos e, sobretudo, que gostem de todos por igual. O que se passa nos pais para que, ao contrário de tudo o que desejam, pareçam preferir um filho ao outro? A forma como reconhecem naquele para quem guardam a animosidade tudo aquilo que mais os amarfanha em si próprios ou, por exemplo, as parecenças incómodas em relação a um familiar que não toleram; a história de sobressaltos que possa ter havido nalguns momentos da vida do filho, que pareça ser o preferido, que os leve um e outro a chegarem-se mais.
Não é verdade que os pais jamais vivam a inveja, em relação a um dos filhos, por uma vez que seja. Os pais também invejam os filhos. E, quando sentem que não podem competir com eles, deitam-nos abaixo. Quando lhe exigem que eles acedam a tudo o que um pai idealizou para si próprio para, logo a seguir, desejarem que um filho não conquiste e não concretize os seus sonhos como se, com isso, desqualificasse e minimizasse os pais.

3. Talvez não seja por acaso que, ao contrário da Terra do Nunca e do País do Natal, não haja um lugar para os pais. E, muito menos, que ele não fique entre o céu e a terra. É por todas as crianças terem convivido com um desses recantos mais sombrios que existem nos pais que, todos nós, idealizamos tanto a infância. Não é tanto porque ela tenha sido sempre boa. Mas porque, dessa forma, protegemos o lado b dos nossos pais.

 

Amor de mãe

Escrito por Eduardo Sá Segunda, 08 Agosto 2011 | Visto - 36381

Crónica de Eduardo Sá.

   

É urgente o orgulho

Escrito por Eduardo Sá Segunda, 08 Agosto 2011 | Visto - 19629

Será que à medida em que não nos reconhecemos nos nossos filhos eles morrem, um bocadinho, dentro de nós? Morrem. Se só nos ficarmos por aquilo com que nos magoaram e desistirmos de ser os seus pais.

1.

Muitas crianças não são só um governo-sombra lá em
casa. Na verdade, alegam não perceber as medidas familiares. Ameaçam fazer cair o governo dos pais e mandá-los para as agências de rating, de forma a que eles passem a ser considerados como se estivessem um degrau acima do lixo (como agora se tornou, infelizmente, mais ou menos banal). Claro que, logo a seguir, há sempre quem considere que a democracia familiar tem qualquer coisa de «o povo é quem mais ordena» e que seria preciso um FMI para as famílias com cortes e mais cortes nos benefícios das crianças e muita disciplina no orçamento dos mimos. Outros ficam, unicamente, pela ajuda externa: entregam parte da gestão das crianças a um psicólogo ou a um pedopsiquiatra. Ninguém fala com ninguém, não há medidas estruturais e, no final, espera-se que a cotação das crianças seja revista em alta, como se os «mercados», ao menos aqui, andassem distraídos. Se se compreende que um filho equipare os pais a um fundo de estabilização permanente, na verdade, sempre que eles deitam contas à vida, o seu grande problema não passa tanto por não assumirem os erros de gestão que acumularam mas pelo desconforto, mais ou menos secreto, de não se reconhecerem, algumas vezes, nos filhos que criaram. (Será que à medida em que não nos reconhecemos nos nossos filhos eles morrem, um bocadinho, dentro de nós? Morrem. Se só nos ficarmos por aquilo com que nos magoaram e desistirmos de ser os seus pais.)

2.
Nem sempre os filhos são motivo de orgulho para os pais. Não tanto pela forma como não acumulam vitórias (que, reconheço, os envaidece). Mas pelo modo como parecem não ser sempre as pessoas com que os pais sonharam: nem tão bondosos nem tão compreensivos, nem tão perseverantes ou verticais como os pais desejariam. «São crianças», diremos nós. E, em parte, será assim. Mas, sejamos prudentes: muitos daqueles que, no nosso crescimento, pareciam não ter sensatez, nem quando se tratava de pedir desculpa, foram sendo, pela vida fora, demasiado iguais a tudo o que tinham de mais feio. Porque não foram capazes de ser sensatos. Talvez porque a sensatez resulte duma síntese, simples e exequível, de diversas perspectivas, com as quais não há como não chegar a consequências empreendedoras. Por outras palavras: só a sabedoria nos torna sensatos.

3.
Em relação a tudo aquilo que os nossos filhos podiam ser, como pessoas (e que, por qualquer motivo, não serão, muitas vezes, capazes de alcançar), serão os pais sábios e sensatos? Não poderão estar a demitir-se de ser um «fundo de estabilidade», confundindo pais bonzinhos com pais bondosos e principezinhos com pequenos tiranos? Não hesitarão ser uma entidade reguladora da sensatez aconchegando a vergonha que sentem (com alguns dos seus actos) na vaidade que as conquistas dos filhos logo lhes trazem? Acho que sim. Muitas pequenas vaidades, todas juntas, impedem-nos a todos de ver os nossos erros, as nossas falhas e, até, os nossos sonhos. Vaidade é muito hoje e muito pouco amanhã. É inimiga da esperança. A vaidade é vergonha tímida. Mais que felicidade descartável, é uma culpa que persegue. O orgulho não. Orgulho é tudo o que fica depois de confrontarmos sonhos, projectos e princípios com aquilo que construímos com integridade e com paixão. Casa história com futuro.

4.
Eu acho que nos damos mais como objectos de vaidade do que como motivo de orgulho. Falamos mais das vitórias que dos erros, dos assombros que dos medos. E não lhes falamos, com orgulho, de tudo o que os nossos pais e os nosso avós conquistaram (em condições, incomparavelmente, mais adversas). Todos precisamos de perceber que, ao pé das pessoas que admiramos, somos sempre mais ou menos pequeninos porque até elas podiam ser melhores. A admiração esvazia a vaidade. E é a auto-estrada para o orgulho.

5.
Também nós precisamos de admirar os nossos filhos para nos orgulharmos deles. Porque só eles casam sonhos, projectos e princípios. Erros com esperança e integridade com paixão. Porque só eles nos ensinam que não há esperança sem orgulho. E se a esperança são experiências de amor projectadas pelo tempo, só o orgulho é um passado com futuro.

É urgente o orgulho.
Dos pais pelos filhos.
Dos filhos pelos pais.

   

Eduardo Sá reinventa direitos da criança

Escrito por Eduardo Sá Quarta, 01 Junho 2011 | Visto - 32840

As crianças têm direito a descobrir que os melhores brinquedos são os pais.



   

Ninguém se despede quando diz adeus

Escrito por Eduardo Sá Sábado, 14 Maio 2011 | Visto - 12853

Eu sei que me enganaram por amor, mas o céu que me ensinaram não existe. O que nunca me disseram, é que ninguém se despede quando diz adeus.

   

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Editorial.

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