Os bebés nunca são todos cor de rosa

"Chega de vestirmos de “cor de rosa” todos os bebés, como se tudo fosso celestial e bucólico com a sua vinda". Crónica de Eduardo Sá.


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Há um “embrulho cor de rosa” acerca da gravidez que não entendo. A quem serve esta ideia de que tudo nela se passa como “um estado (obrigatoriamente) interessante”? E até que ponto não se foi criando a seu respeito, quase desde sempre, uma espécie de “ditadura celestial” como se tudo o que de assim-assim (também) faz parte duma pessoa fosse indevido ou até, mesmo, interdito? Como se todas as gravidezes fossem desejadas e planeadas. Como se jamais se pudesse conviver, num mesmo estado de paixão por um bebé, com hesitações, com medos e com ideias, por vezes, feias e fugazes. Ou como se ele não pudesse ser indesejado: num primeiro, num segundo ou num terceiro “momentos” da gravidez e, ainda assim, vir a ser amado, logo depois. Ou, ainda, como se uma mulher, mal a gravidez se declara, não fosse nunca, simplesmente, hospedeira ou pouco hospitaleira e tivesse de ser mãe, muito mãe, e acima de tudo mãe: luzente, radiosa e radiante. E, finalmente, como se tudo aquilo que o pai sente fosse razoavelmente insignificante, como se ele não engravidasse, não tivesse o direito de ter uma opinião sobre a gravidez (fosse ela qual fosse), não a pudesse sentir ora divina ora como um ato de “traição”, ou não fizesse as “mesmas contas de cabeça” que uma mulher em relação a todos os momentos do crescimento dum bebé, mesmo a propósito daqueles que interferem, intervêm ou descompensam uma relação de casal.


Mas, afinal, porque é que há, cada dez mais, separações e divórcios no decurso duma gravidez? Porque mãe e pai entram num furor de ressentimentos e, num impulso indevido, sentem que um bebé aclara tudo aquilo que, de forma insanável, os separa? Ou porque aqueles que assumem que um bebé, pode ser divino – para um ou para ambos os pais – reconhecem que ele jamais virá a ser capaz de ligar aquilo que mãe e pai foram fazendo com que quase tudo no outro se fosse tornando estranho? E serão os pais que assumem uma ruptura aqueles que unicamente a sentem? Isto é, não serão muitas (mas, mesmo, muitas) gravidezes vividas num estado de alguma solidão por parte de um dos pais – ou, mesmo, dos dois – a ponto dele “transbordar” para os estados emocionais do feto ou do bebé, contra a vontade dos pais?


E, depois de nascer, é ou não é verdade que, ao mesmo que os pais se sentem preenchidos por uma sensação de dádiva, se sentem “engolidos” por experiências de cansaço e de exaustão, por custos tremendos (que vão desde a parafernália de utensílios de apoio de que ele necessita ao valor, por exemplo, da recolha e da conservação das suas células estaminais), por cascatas de sentimentos contraditórios em relação a ele, à sua história de filhos e às suas competências de pais, e por uma efetiva desregulação dos ritmos de sono, de vida e de sintonia de um casal, com toda a turbulência que isso tem na mãe, no pai e no bebé?


E, regressados a casa, não é verdade que os ritmos de sono e de vigília (sobretudo, da mãe) se preparam para ser “varridos por um tornado” que se irá prolongar, seguramente, por mais ou menos dois anos? E não acontece que tudo aquilo que era possível fazer até aí (como, por exemplo, conciliar namoro, crianças, vida familiar e social, trabalho e lazer) passa a estar comprometido, uma vez que um bebé, os seus ritmos e as suas necessidades passam a “mandar”, em todos os momentos, na vida duma família? E quando voltam os pais a ter espaço de agenda para namorar e, com isso, alimentar de qualidade de vida aquilo que, só por si, um bebé não lhes garante? E quando volta a ser possível conciliar exaustão física, inquietação interior e preocupações emergentes com gestos de carinho dos pais, entre si, de forma a que não cultivem, em silêncio, pequenos ressentimentos que os divorciam, aos bocadinhos, e que nem todo o esplendor de um bebé sossega ou resolve? E até que ponto é que as prioridades amorosas da mãe e do pai do bebé não se vão desencontrando, de forma clara, a ponto de a sexualidade de um casal, depois de um bebé nascer, parecer estar “adormecida” ou comprometida no seu formato habitual por muitos, muitos meses? E não será normal e saudável que – enquanto a mãe se desdobra entre faldas, mamadas, sonos e fúrias de um bebé – o pai confabule que ela deixou de gostar dele, por ser tão grande o nível de aparente indiferença que vai deixando transparecer em relação a quaisquer estratégias de enamoramento que ele possa ir colocando à sua consideração?
E, depois de um bebé deixar os cuidados dos pais para passar para os cuidados diurnos de terceiros, é ou não é normal que mãe e pai se desencontrem na sensibilidade que colocam diante das alterações de comportamento dum bebé, da “vacinação” que ele acaba por fazer ao estar em contacto com tantos bebés diferentes e com ritmos muito pouco personalizados, e nas formas como entendem “fazer-lhes frente”?


E como ficam as famílias de origem dos pais de um bebé, depois do seu nascimento? Será que uma mãe confia com o mesmo à-vontade um filho à sua mãe ou à sua sogra? E será que ambas as famílias serão capazes de respeitar as rotinas e a privacidade de um casal, sem que daí surjam ressentimentos graves que, em vez de transformarem um bebé num menino Jesus, façam com que com o seu nascimento se iniciem ruturas, aparentemente, irreversíveis?

E os irmãos de um bebé: onde cabem eles, seja qual for a sua idade, no meio disto tudo? É normal que os pais “adocem” a sua tolerância e as regras que entendem indispensáveis para o seu crescimento, tal acaba por ser a culpabilidade que os vai tolhendo a todos? E quando os irmãos voltam a reclamar pela chucha ou regridem nas aquisições que já fizeram, não será da mais elementar bondade que os pais vivam num permanente “tapar a cabeça e destapar os pés” em relação a tudo e a nada?


É verdade que um bebé é quem mais ajuda os pais a crescer! E que há um “antes e depois de Cristo” com o seu nascimento, tal é a transformação que traz ao crescimento dos pais. E que, depois dele, o egocentrismo infantil que fosse perdurando nos seus pais se matiza com um olhar de bondade que sem ele seria impossível. E que a complexidade que traz à vida dos pais é tão interminável que só isso os ajuda a ser mais conciliadores e mais simples. E que as probabilidades de se tornarem, por causa de um bebé, mais bonitos e mais bondosos aumentam muito, muito, muito. Mas, apesar disso, chega de vestirmos de “cor de rosa” todos os bebés, como se tudo fosso celestial e bucólico com a sua vinda. Porque, com isso, se traz para os pais um peso de culpa que só os fere e magoa. Como se falarmos verdade sobre a vinda de qualquer “menino Jesus” dissuadisse os pais de querem ser pais. Quando só a verdade lhes traz a humildade e o descanso de hesitarem, de errarem, de se perderem em pequenas fúrias. Porque é com tudo isso que, seguramente, condimentam o jeito desmedido de o amarem!


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