A minha alegre casinha

A nossa casa tem “a nossa cara”. É por isso que pessoas muito desarrumadas por dentro têm casas que parecem viver num permanente tornado.


alt

A nossa casa tem “a nossa cara”. É por isso que pessoas muito desarrumadas por dentro têm casas que parecem viver num permanente tornado.


1.
A casa, tal como a conhecemos – com quartos individualizados e com o cuidado de se preservar a intimidade –, é uma descoberta muito recente da Humanidade. Mas se, para nós, a casa é o espaço físico que abriga objetos, histórias e, sobretudo, as pessoas e as relações mais íntimas e mais importantes, para as crianças a casa confunde-se com a noção de família. Melhor: a casa é o lugar onde se guardam os pais. Por isso mesmo, não é fácil passar desta confusão gostosa entre casa e família e fazer a transição da “nossa casa” para “a casa da mãe” e para “a casa do pai”. Por mais que os pais destinem a cada um dos filhos – numa nova casa que tenham, após uma separação – espaços representativos e generosos. E mais difícil se torna quando um dos pais permanece na “morada de família” e o outro passa a ter uma nova casa. Porque por mais que não se esteja, fisicamente, em casa, o espaço, os objetos e a relação simbólica que eles têm entre si não se apaga, por mais que os móveis se mudem ou as regras se alterem. Tudo funciona como se, na ausência física de alguém, o espaço da casa falasse por si.

Num plano mais pessoal, a casa é sempre uma projeção do espaço mental de cada pessoa. Ou seja, a nossa casa tem “a nossa cara”. É por isso que pessoas muito desarrumadas por dentro têm casas que parecem viver num permanente tornado. Enquanto outras são tão meticulosas em tudo o que faz parte da casa que mais parece que não a habitam.
Mas, já no plano das relações que ela acolhe, há espaços da casa que, por vezes, não se traduzem em espaço físico mas que representam exercícios de preponderância que uma pessoa acaba por ter numa família. Por outras palavras: nem todas as pessoas ocupam o mesmo espaço numa família. Em todas as famílias há pessoas que ocupam muuuuito espaço! Diante das quais, quase sem darmos por isso, fazemos com que o nosso se encolha. E se é assim entre os pais (que raramente dividem os espaços da casa de forma equilibrada), com os filhos não deixa de acontecer de modo igual. Isto é: por mais que os filhos sejam, à luz dos espaços da casa, todos iguais, há sempre um “mais igual” que os outros. Ou no modo como se distribuem os quartos. Ou no tamanho do guarda-roupa que ele ocupa. Ou na forma como se condescende com o seu “mau feitio” ou com o jeito como reclama ou exige mais espaço de atenção. Por outras palavras, o espaço que reservamos para cada pessoa diz muito da importância que lhe atribuímos dentro de nós ou do espaço que, simbolicamente, nos merece estima que ela ocupe. Quer na forma como o espaço se distribui. Quer no modo como se tratam alguns objetos que lhe dizem respeito (como o “cantinho da mãe” ou a “cadeira do pai”). Quer na forma como eles se implantam na casa. Aliás, a importância destes pequenos-nada é tal que deixarmos de ter o nosso quarto na casa dos nossos pais, por mais que a racionalidade o contrarie, quase nos faz sentir “despejados” de dentro da própria família.
Ao mesmo tempo, a casa – na forma como articula lugares, espaços e utensílios – representa um enredo de relações como se as peças, só por si, deixassem de ser objetos, unicamente, e passassem a comparticipar numa espécie de encenação que faz com que o próprio espaço físico que elas ocupam represente um pequeno pedaço de alguém da família. E que, por isso, necessite, para conviver com a casa, de espaço “para respirar”, de forma a que não colida com outras peças e com outras relações.

É claro que a casa – enquanto espaço unicamente físico, esvaziada de tudo o que tenha uma dimensão afetiva e simbólica – não existe enquanto “a casa”. Ou, talvez melhor, “a casa” nem sempre coincide com o espaço físico ao qual ela se confina. Aliás, na maior parte das vezes, não coincide, de todo. Simplesmente, porque “a casa” representa o espaço que resulta da interseção dos espaços de que as relações precisam e que, de certo modo, criam entre si. A casa é uma interseção de espaços. Aquilo que fica da ligação do “espaço do pai”, do “espaço da mãe” ou do espaço de cada criança. E, por vezes, dessa interseção de espaços pode ficar um conjunto... vazio. Se for assim, a casa - existindo fisicamente – acaba por refletir essa falta de raízes que alimenta (quer através do seu ar demasiado funcional, quer pela forma como, aos poucos, parece desmazelar-se).

Se para muitas pessoas as suas relações não têm “a sua cara”, há quem – trazendo essas relações dúbias para dentro de casa (e, às vezes, fazendo delas os alicerces d’ “a casa”) – nunca se sinta “em casa”. Ou seja, há muitos pais que tendo, formalmente, uma família, nunca estão “em casa”. Ou, com palavras mais ásperas: por mais que tenham uma casa, serão um bocadinho “sem abrigo”, se considerarmos os desamparos que criam e acumulam dentro nela. Com tudo o que isso implica na forma como vivem a casa, os seus espaços e as relações que ela suscita e acolhe. E, é claro, a sua função de pais. Junto de quantas pessoas da nossa família nos sentimos em casa? Junto de muito poucas. Mas se a pessoa com quem vivemos não é “a nossa casa”, a casa nunca será “A nossa casa”!!!!!
A casa funciona, também, como uma reserva natural. Neste caso, de todas as histórias de toda a família. Daí que a ideia: “minha casinha, meu mundo”, mesmo quando não se traduz numa peça de cerâmica, seja verdade. Sendo assim, o grande desafio de cada um de nós será sentirmo-nos “em casa” mesmo que tenhamos de a dividir com alguém que precise de a sentir assim, também. Por mais que nós tenhamos chegado a casa... primeiro.

2.
Ora, as crianças percebem, minuciosamente, esta rede de pequenos pormenores com que se costura “a nossa casa”. Às vezes, os pais acertam em quase tudo, como pais, mas não reparam em todos os pormenores com que a casa fala da família. Se os sente importantes, não fuja de os abordar. Até porque os pais resolvem quase tudo. E são vividos tão no presente que se parecem com os heróis das histórias; que não têm uma casa (onde está a casa de Astérix?). Que não dormem, não morrem, nem se constipam. Os heróis encarnam muitas das características que as crianças atribuem aos pais. Talvez porque elas os vejam como “A sua Casa”!

Por isso mesmo, é importante que cuide, com delicadeza e atenção, do espaço que os seus filhos ocupam em casa. E que perceba que, muito mais que as particularidades do condomínio, é a forma como todos se acolhem a todos que faz com que uma criança se sinta em casa. Agora, se puder fazer uma sugestão, eu faço duas. Tenha atenção ao modo como todos contribuem para que, no quarto dela, cada criança se sinta “a jogar em casa”. E que, se há um objeto precioso para que uma casa nos faça sentir “em casa”, considere a mesa das refeições como o principal. Até pela forma como nela se vivem relações, histórias e sabores. Talvez por isso, o quarto de uma criança e a mesa das refeições, depois dos pais, sejam quem mais faz com que ela sinta a casa como um lar. Ou, numa versão mais amiga dos Xutos, como “a sua alegre casinha”.


Leia outras crónicas do psicólogo Eduardo Sá:

Sem berrar, sem rezingar e sem resmungar

Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

editorial-319

alt

Vamos para a rua!

O recado ficou na porta do quarto: “Não me acordem. Deitei-me tarde e gosto de dormir de...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais