Cabeças no ar, graças a Deus!

"‘Tecnicamente’ todas as distrações das crianças são défices de atenção. E isso não é, obrigatoriamente, mau!" Diz Eduardo Sá!


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1. São cada vez mais os pais e os professores que – duma forma, regra geral, muito preocupada – me falam dos défices de atenção das crianças. Inevitavelmente, como se fosse um “defeito de fabrico” ou, se preferirem, um quadro inequivocamente neurológico ou cerebral, vivido como se fosse uma doença crónica que, na melhor das hipóteses, merecerá cuidados paliativos. Alguns pais, sentem-se atropelados pela forma, duma leveza estonteante, com que alguns professores (que, à falta de uma leitura articulada para esta “epidemia”, “diagnosticam” sem nunca se implicarem como uma das muitas razões pela qual ela existe) e um ou outro colégio (cada vez menos, felizmente) – mais amigo das festas de Natal, das festas do fim do ano, e das notas de nível 5, mesmo quando levam com muito “pó de arroz” – vão evocando este quadro como se ele fosse “o inimigo público número 1” dos rankings. Outros pais, ainda, uma imensíssima minoria, procuram uma razão orgânica para o “ele tem tudo” com que blindam quaisquer perspetivas de alguma comparticipação que possam ter nessa dificuldades dos seus filhos. Escusado será dizer que, neste contexto, as crianças distraídas parecem pertencer a um Jurássico qualquer como se, atualmente, houvesse dois tipos de crianças: os bons alunos e as crianças com défices de atenção. Mas de que forma se liga a “cabeça no ar” – que é um magnífico (!) “equipamento de base” de todas as crianças – com os défices de atenção? Será a distração uma questão tão grave para a saúde das crianças? Tentemos, então, percebê-la.
“Tecnicamente” – digamos assim – todas as distrações das crianças são défices de atenção. E isso não é, obrigatoriamente, mau! Será muito pior que haja crianças que, parecendo estar atentas, o fazem por medo de represálias dos pais, quando os resultados não são os exigidos, ou o fazem como forma de “desligarem” de assuntos importantíssimos das suas vidas e “mergulham na escola”, num registo do género: “se eu fizer de conta que o mundo não está a desabar ele há-de manter-se no lugar” (como acontece quando, diante de episódios de luto, por exemplo, muitas delas têm desempenhos escolares acrescidos). Ou quando, parecendo atentas, estão “ausentes” do mundo, escutando as aulas “ao longe”, ao mesmo tempo que parecem demasiado alheadas do fervilhar da vida à sua volta. Seja como for, sempre que uma criança se distrai tem um défice de atenção, claro. Só que tomar-se cada défice de atenção como se todas as crianças fossem ou perturbadas ou desorganizadas já é um bocadinho batoteiro. Para mais, quando se generaliza uma solução medicamentosa – à base de anfetaminas, por exemplo – o que se leva a colocar no mesmo saco, tomando-as a todas por igual, distrações muito, muito diferentes umas das outras. Ora, sejamos verdadeiros: quando se banaliza a distração como um défice das crianças – nunca dos pais, de um professor ou da escola – está a supor-se (tenham as aulas o tempo que tiverem), seja qual for a carga de trabalho (dentro e fora das aulas), a pressão que a escola ou os pais lhe colocam sobre os ombros ou a sua qualidade de vida, num determinado momento, que seria de esperar que em cada criança existisse um James Bond que, com uma pontualidade britânica, funcione com o rigor dum relógio suíço.

A distração, em sentido genérico, pode merecer várias leituras:
– a distração é, muitas vezes, uma reação saudável duma criança, rigorosamente adequada àquilo que se passa à volta dela, na qual não se podem excluir nem o cansaço (por excesso de trabalho), o stress (duma agenda que, por vezes, pode ser exagerada) como, também, a falta de capacidade – circunstancial, porventura – dum professor no sentido de definir patamares sensatos de autoridade e de cativar a atenção e de a mobilizar, juntando a sintonia afetiva duma criança por um assunto (tornado sedutor pela forma como é exposto) com a sua capacidade de abstração, de síntese e de relacionamento;
– a distração pode ser, também, um movimento fóbico duma criança. Isto é: se ela é briosa e competitiva e, ao mesmo tempo, sente que há assuntos que não “domina” ou acerca dos quais se perdeu do “comboio” de conhecimentos, é natural que “flutue”, imaginação adentro, quase como modo de dizer qualquer coisa do género “se eu não consigo não é porque não saiba; é porque não me apetece aprender...”. Será uma espécie de refúgio (com algum “mau perder”, é verdade) diante de aspetos ou de conhecimentos que intui, que (em parte) não desconstrói nem liga e que, por isso, funcionam, transitoriamente, como uma espécie de “digestão por fazer”;
– a distração surge, também, quando uma criança adora ser a “primeira figura” e lhe dá “uma volta no estômago” ter de partilhar a atenção de um professor – por quem quer ser adorada – com uma turma interminável de colegas prontos a rivalizar, sem descanso, pelos mesmo fins. Nessas circunstâncias, “estar na lua” não é uma forma de não querer saber de coisa nenhuma do que se passa na aula. Mas, antes, uma espécie de “greve de zelo” que serve, à boa maneira de alguns políticos, para que, de cada vez que dá a entender que “não te estou a ouvir!”, pretender dizer: “o que queria – mesmo!– era ser o teu “filho querido”;
– a distração pode ser, igualmente, uma reação depressiva. Imagine-se que uma criança “apanhou” um conflito parental mais ou menos “no ar”; ou que, interpretando um olhar, uma agitação ou um silêncio mais distante de um dos pais, reage, empaticamente, de modo apreensivo, tornando essa hostilidade ou essa tristeza como suas; ou que a sua relação com a escola não será, por momentos, a melhor; ou, ainda, que o recreio lhe trouxe tensões, conflitos ou maus-tratos que não consegue gerir... Nessas circunstâncias, estar distraído pode representar uma (outra) forma de estar “metido consigo” – de estar triste, portanto – se bem que, em vez de se chorar para fora se faz um pouco de “homem invisível”;
– a distração é, claro, também, uma reação ansiosa. Ligada ao sofrimento (ou aos sofrimentos) duma criança. Isto é: uma criança está ansiosa quando as coisas que sente e que pensa vão sendo varridas para “baixo do tapete” e, tal como os adultos, faz por funcionar deixando assuntos importantes mais ou menos para esclarecer... mais tarde. Um pouco no género de: “eu não posso é estar parado”...
– e pode, entre outros aspetos, estar ligada a um estado geral mais desorganizado e agitado, ora impulsivo, ora violento até, que caracteriza as crianças muito doentes e em perigo e que, como todos concordaremos, abrangerá uma percentagem muito, muito pequena (felizmente!) das crianças.

Seja como for, uma criança pode não estar só triste ou só... distraída, ou ser só imaginativa (que faz com que tenha muito mais probabilidades de criar histórias e enredos que a convidam a ser... mais distraída). Muitas vezes, vários dos motivos que geram a distração convivem uns com os outros. É normal que assim seja. Nas crianças como em nós.

Em resumo, deixarmos de falar de distração e passarmos a falar de défices de atenção é um arabesco de linguagem que deixa no ar que défice é, de certo modo, “defeito de fabrico”. No entanto, se as crianças guardam o melhor dos seus défices de atenção para a escola – enquanto são atentíssimas quando brincam ou quando “apanham conversas”, por exemplo – isso significará que teremos um défice muito seletivo que, regra geral, nos permite perceber que a esmagadora maioria dos défices não são... défice.

2. No entanto, é bom que fique claro que a atenção não é um dispositivo de opção na natureza humana: é um “equipamento de base” de todos os animais. E, portanto, imaginarmos que há crianças cuja vida lhes passa toda ao lado, por via dos défices de atenção, é um perfeito absurdo. As crianças sentem e intuem, interpretam e compreendem, discorrem e abstraem e, portanto, por mais distraídas que pareçam, serão tudo menos... “apoucadas”. São – todas elas! – inequivocamente inteligentes. Por mais que, por carência de recursos, pelo espaço que ocupam inúmeras “digestões por fazer” ou porque a “química” entre um professor e uma criança nem sempre será um produto premium ou gourmet, haja muitos momentos em que a escola e ela vivam numa ameaça permanente de divórcio que faz com que ambas pareçam distraídas quando, simplesmente, talvez não “morram de amores” uma pela outra.

Seja como for, e tomemos esse aspeto como uma regra geral, a atenção é uma consensualidade de sentidos. É muito, muito difícil de conseguir. A ela nunca se chega sem paixão, por exemplo. Isto é: ninguém é atento à margem daquilo que sente, seguramente. E, muito menos, porque se sinta obrigado a estar atento. Por outras palavras: estaremos atentos quando somos transparentes, autênticos e espontâneos; quase tudo ao contrário do que, por sugestão duma ideia muito judaico-cristã de educação, vamos fazendo. Logo, são muitas mais as pessoas que fogem da atenção do que aquelas que vão ao seu encontro. Daí que falar de défices de atenção como um defeito das crianças dá a entender que, ao contrário do que sucede com elas, os pais são o primor das atenções (o que, como todos sabemos, não é verdade). No entanto, a distração não é, longe disso, uma fatalidade. Até porque, mesmo que façamos por ser desatentos, somos tão sensíveis, tão intuitivos e tão acutilantes que por mais que quiséssemos ser amigos dos défices de atenção não conseguiríamos. E, mesmo quando a distração ocupa demasiado espaço, emerge um “nervoso miudinho” (como o das crianças, claro) que é uma espécie de “luzinha vermelha” que nos indica que talvez andemos a exagerar no modo como não meditamos nem conversamos, com verdade, acerca daquilo que se passa connosco.

Ainda assim, porque é que as regras (excluindo todas as outras causas que contribuam para ela) ajudam a ter atenção? Porque as regras, como as rotinas, se forem sensatas, são excelentes sincronizadores dos ritmos biológicos. E são uma forma de ir “arrumando assuntos” (pensando em “serviços mínimos”, se preferir) sem dar por isso. Para além de ajudarem a estruturar uma espécie de formação de compromisso entre os ímpetos duma criança e a Lei dos pais. Se uma criança “interioriza” essa Lei e a assume em “piloto automático” adequa-se às regras – contrafeita, claro (só crescemos quando somos obrigados a isso...) – mas, mesmo com má vontade, vai “apanhando no ar” um padrão de funcionamento (que serve de grelha para lidar, também, com os conhecimentos) que - se os pais lhe juntarem uma rotina de 20-30 minutos de estudo diário, antes do jantar – fará com que ela aprenda... sem querer. E, ao aprender quase sem querer, terá uma atenção mais educada, se bem que flutuante. Aquilo a que nós todos chamamos, simplesmente, atenção.
No entanto, devia ser proibido que os pais queiram muito que as crianças sejam atiladas. Porque, sem quererem, as convidam exageradamente para um esforço tremendo para estarem atentas, o que só se consegue quando uma parte delas escuta, interage, sente e pensa enquanto que a outra metade funciona como o Tribunal de Contas em relação ao Governo. Já as crianças sem as regras suficientemente claras tornam-se impulsivas (porque em vez de pensarem e agirem, quase ao mesmo tempo, agem e reagem, mais do que deviam). E tornam-se um bocadinho insolentes (porque, do mesmo jeito que dão um tratamento “muito pessoal” àquilo que lhes exigem em casa, estão sempre a medir forças e a desafiar, seja em relação aquilo que for). E ficam confusas, porque se há aspetos em que os limites são uns, haverá outros, muito semelhantes, em que eles variam demais. Logo, continuam a ser inteligentes e atentas mas vivem “partidas ao meio” entre aquilo que não conseguem gerir em si e aquilo que têm de gerir para fora de si. Ficam, portanto, mais “mexidotas”... Mas, em relação a isso, vamos, portanto, distinguir as crianças que sofrem de “bicho-carpinteiro” – que são saudáveis e têm “a vista na ponta dos dedos” – das crianças “agitadotas” (que são “vivaças” e “espertalhonas”, mas que precisam dum certo “músculo” que só as regras dos pais lhes dará), mas que estão longe, muito longe, de serem as crianças doentes e “despedaçadas” (que os verdadeiros hiperativos não deixam de “ser”). É claro que as crianças agitadotas são distraídas. E que não podemos condescender com essa “democracia do proletariado” sob pena de elas ora se sentirem “reizinhos”, em casa, ora (quando tentam, ao chegarem à escola, “mandar no jogo”, como tentam fazer com os pais) transitarem para a categoria de Calimeros, num abrir e fechar de olhos.

3. É, portanto, indispensável que possamos dizer aos professores e aos pais, com delicadeza, mas de forma clara: Por favor, deixem as crianças em paz! Dêem-lhes tempos para serem crianças. Dêem-lhe oportunidades para errar. Deixem que elas sejam “cabeças no ar”. Dêem-lhes regras, sim, para que elas aprendam a ser “cabeças no ar” com os “pés na terra”. Mas não se precipitem, por favor! Nem reajam como se uma ligeira “constipação da atenção” fosse uma “pneumonia carregada de défices”. As crianças também têm uma vida. E, ao contrário dos pais, não têm toda a autonomia do mundo quando se trata de a corrigirem. Falam, é verdade, mais por atos e por omissões que por palavras. Mas nunca deixam de manifestar aquilo que sentem. E a distração é uma espécie de “ponta de febre” que fala disso melhor que outra coisa qualquer. As crianças adoram aprender mas não acham graça nenhuma a estudar; precisam de tempo para educar esse gosto. Amam a escola mas detestam ser jovens tecnocratas de mochila. Acarinham os professores mas dispensam “precetores alemães” que, em vez de se tornarem pessoas mais importantes que muitos familiares, oscilam entre as queixinhas e a “disciplina militar”. Respeitam a autoridade mas desafiam o autoritarismo. As crianças são, graças a Deus, cabeças no ar! Ao contrário de inúmeros pais que andam de olhos no chão. Seja como for, elas precisam deles ora como “entidade reguladora” ora como “observatório da saúde”. Mas precisam, sobretudo, do seu “dedo que adivinha”. Porque se os pais, com a ajuda dos professores, perceberem os motivos pelos quais as crianças vão da “cabeça no ar” à “cabeça na lua” (que é a “senha” com que uns e outros falam da distração mais exagerada) e se, de forma firme e serena, ambos tomarem medidas para que ela se resolva (com ajuda dum técnico, se for preciso), a vida fica mais simples e menos alarmada. Afinal, o mundo foi dando pulos e avançou, sobretudo, à conta das pessoas que foram crianças atiladas ou com a ajuda daquelas que ora estavam de “cabeça no ar” ora iam à Lua, deixando um “volto já!”, estampado no rosto, à espera que um professor as “apanhasse”?...


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