Maternalês e a diferença da espécie

A mãe distingue-se por uma espécie de dialeto de fim de tarde que começa invariavelmente por: “Como é que correu a escola?” 




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Foi passando de boca em boca, ao longo do tempo, funcionando como uma espécie de segunda língua, mais ou menos codificada, através da qual as mães falam entre si, sobre os seus “pimpolhos”


Desde há 3600 biliões de anos, a vida na Terra foi evoluindo até constituir a biodiversidade que, hoje, nós conhecemos, composta por uma fauna e uma flora ricas. No meio da pluralidade de espécies que a compõem, da fauna da Terra destaca-se o Homem (um animal sábio que, por vezes, se confunde com o seu jeito de homo habilis). E, dentro dessa grande categoria, foi evoluindo uma variação (primorosa) dessa espécie, que povoa todo o planeta, e a que, de forma transversal, todos chamam... mãe.
A mãe é, independentemente da latitude, uma pessoa que se destaca pelo seu temperamento “muito particular”. Regra geral, a mãe foi mantendo o seu jeito mais ou menos nativo. Do mesmo modo que a sua versão original, a mãe caracteriza-se por ter um coração grande, acompanhado de uma cabeça muito “quente”. Habitualmente, a mãe é muito palavrosa, sobretudo quando ameaça as suas crias, cedendo, logo a seguir, com o mesmo jeito súbito com que se comove ou exalta. São, também, muito característicos da mãe os gestos amplos, acompanhados por um toque esganiçado que a tornam, facilmente, identificável. Fazendo-se, na maior parte das vezes, acompanhar, numa versão mais atenuada deste seu furor interventivo, pelo pai que – se for como acontece, habitualmente – completa esta parceria com um toque ora de distraído ora de alheado, que faz com que, mal receia ver o seu brio beliscado, ela desabafe (esbracejando, vermelhusca): “Mas será possível que tu estejas sempre a pensar... em nada?!..”, que é muito comum nas famílias saudáveis desta espécie. É, ainda, de realçar o lado intuitivo que, de forma vaidosa, a mãe exibe, amiúde, e que tão depressa a faz reclamar um pretenso sexto sentido que a distinguiria de todos os animais como, também, a leva ao exagero – que se foi tornando um “clássico”, ao longo da História – de ser, oficialmente, “a chata oficial de todas as famílias”. Aliás, a mãe distingue-se por uma espécie de dialeto de fim da tarde que começa, invariavelmente, por: “Como é que correu a escola?”, que segue para: “O que é que foi o almoço”, terminando, em beleza, num autêntico hit: “Tens trabalhos de casa?” (que deixa todas as crias indispostas, diante de tanto zelo).

A mãe introduziu, todavia, variações muito interessantes em todos os idiomas nativos – por mais que, todos eles, sejam conhecidos como “língua materna” – a que podemos chamar maternalês. O maternalês é falado, em regra, por todas as mães, e foi passando de boca em boca, ao longo do tempo, funcionando como uma espécie de segunda língua, mais ou menos codificada, através da qual as mães, de forma levemente envaidecida (mas muito açucarada), falam entre si, sobre os seus “pimpolhos”. Entre nós, o maternalês utiliza o português corrente, mais ou menos coloquial, embora seja adornado por expressões que parecem ter uma função de “senha”, que não requer tradução ou descodificação, porque, sem quaisquer hesitações, as mães apanham o sentido e, de forma terna, as leva a trocas de palavras muito solidárias, entre si. De entre elas, destacam-se algumas:
– “Ele deu-me a volta”: representa a justificação mais comum de todas as mães quando, atrapalhadas, reconhecem que se deixam vencer pelo amor e, depois de ameaçarem as suas crias cinco, seis ou setes vezes, cedem, em toda a linha, contrariando quase tudo o que, até aí, elas entendiam ser inegociável.
– “Tira-me do sério”: acaba por traduzir a dificuldade com que a mãe adapta o seu idioma à definição de regras e de limites, sobretudo quando ela acaba a rir, depois de usar palavras “agri-doces”.

– “Voltei à estaca zero”: que, em maternalês, significa “querido, fui engolida pelos miúdos”. Se bem que a pronúncia, pouco carregada, com que esta expressão é projetada, tenha um tom de resignação que engana.
– “Leva-me ao limite”: caracteriza a grande limitação que o maternalês parece ter quando se trata de dizer: “chega!”, de forma clara e sem pestanejar, o que leva as mães a reconhecer que a criançada lhes acaba por proporcionar uma espécie de “jet lag” mais demolidor do que qualquer ida ao ginásio.
– “Apanhou-me o ponto fraco”: representa uma zona muitíssimo mais sensível – senão, mesmo, mais frágil – que o “calcanhar de Aquiles”, situado, regra geral, algures no perímetro do coração, com que, habitualmente, as mães se lamentam da sua falta de vigor para lutarem contra a sua irreprimível dedicação.
– “Saiu-me melhor que a encomenda”: é, de entre as formas vaidosas, que caracterizam esta “espécie”, aquela que, provavelmente, será a mais comum, e que quererá dizer, (em maternalês, do mais cerrado) que, por mais que tenham idealizado as suas crias, elas parecem ter o engenho de as apaixonar e seduzir, quase todos os dias. Habitualmente, um desabafo destes representa uma declaração de rendição a todos os “vá lá!...” (acompanhados dum olhar “de cachorro abandonado”) ou a quaisquer “mãezinha querida” com que a miudagem reclama por melhor mãe.
– “Vence-me pelo cansaço”: traduz o lado inconsistente desta “espécie”, que muito revolta todas as mães, e que as faz, quase todos os dias, exigir uma coisa e permitir o seu contrário.

– “Ainda não fez o click”: traduz a imensa paciência da mãe no sentido de aguardar que as suas crias desabrochem e percam o lado habilidoso com que nunca guardam para amanhã tudo aquilo que podem fazer... depois de amanhã.
– “Será uma chamada de atenção?”: é uma espécie de sistema de alarme que tolda qualquer versão de maternalês e que, invariavelmente, coloca a mãe no registo duma atenção saltitante que a leva a cultivar o sentimento de culpa que a caracteriza, quase sempre, e que a põe a reagir “à leoa” sempre que sente a sua cria a roçar o tristonho.
– “Qualquer dia tiro férias de vocês!’: traduz, em maternalês, os ímpetos sindicalistas de todas as mães saudáveis e representa um pré-aviso de greve, sem fim à vista. Ao contrário de outras, este “tiro férias de vocês” não é uma greve pensada, obrigatoriamente, para uma sexta-feira ou em períodos de ponte, mas abrange quase todos os dias, com mais ênfase, curiosamente, aos fins de semana.
– “Não me fales assim que sou tua mãe!”: representa, regra geral, a fórmula com que, à falta de mais argumentos, as mães recorrem depois de gastarem o maternalês, sobretudo quando todos os outros argumentos ficaram esbaforidos e não lhes resta mais nada senão refugiarem--se nos aspetos formais da conversa com que tentam não perder a razão.
– “Como é que tens coragem de me dizer uma coisa dessas?”: representa uma forma da mãe pedir mimos, em maternalês, fazendo de Calimero (e que, dada a fonética desse “idioma”, é percebido, regra geral, como um arrufo).
Em resumo, por mais que se perca “no latim”, a mãe foi conseguindo manter vivo o maternalês o que fez, aliás, com que ela se distinguisse, de entre todas as espécies que povoam a Terra, como o lado premium da natureza humana. Só pecam no tom e na velocidade com que todas as mães falam o maternalês. Nada que não se perdoe. Afinal, até mesmo as almas primorosas têm (digamos assim...) “um outro eu”.


Leia outras crónicas do psicólogo Eduardo Sá:

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É muito difícil ser boa mãe!


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