A agenda dos primeiros minutos do recém-nascido

Indíce do artigo
A agenda dos primeiros minutos do recém-nascido
ASPIRAR OU DEIXAR CHORAR
Todas as páginas

alt


Limpar, aquecer, aspirar, sondar, avaliar, pesar. Os primeiros minutos após o nascimento podem estar cheios de procedimentos que deixam os pais inseguros. Todos têm por objetivo garantir o bem-estar do recém-nascido. Mas há cada vez mais quem defenda que tudo pode esperar até que pais e bebé se olhem e criem os primeiros laços de amor.


Inês nasceu em casa. A mãe, Isabel, reconhece que, até ao momento da verdade, não tinha decidido se queria ter a filha fora do hospital ou não, mas o parto decorreu tal como tinha idealizado: sem analgesia de qualquer tipo e com liberdade total durante o período das contrações e o momento da expulsão. Logo que nasceu, a bebé foi colocada em cima da barriga da mãe e aí permaneceu durante largos minutos, intocada, a olhar e a ser olhada pelos pais. Só depois a obstetra procedeu ao corte do cordão, deixando a bebé ao colo da mãe, pele com pele, tapada com toalhas aquecidas.

Não demorou muito até que Isabel colocasse Inês ao peito e foi já a mamar que a bebé acabou por ser observada pelo pediatra que, entretanto, tinha sido chamado. E observação é mesmo a palavra, já que o médico apenas lhe tocou quando a primeira refeição terminou. Inês foi auscultada sempre ao colo da mãe. Tudo estava bem e não demorou muito até toda a equipa que acompanhou o nascimento e os primeiros momentos da Inês deixar tranquila a nova família.

Tiago nasceu numa maternidade. A mãe, Cristina, optou por um local que lhe transmitia segurança, caso a situação se complicasse. E foi precisamente o que aconteceu. A posição em que o bebé se encontrava levou a equipa a optar por uma cesariana com epidural e logo que Tiago nasceu foi colocado em cima da barriga da mãe. Mas foi sol de pouca dura. Alguns momentos depois, o bebé foi levantado, levado para fora da sala de partos e Cristina só o voltou a ver mais de quatro horas depois, após ter saído da sala de recobro. É que não havia hipótese de a transferir para uma enfermaria e a instituição não facilitava a presença dos recém-nascidos no espaço em que as mães recuperam do parto.

O que se passou nesse intervalo em que não viu o filho continuaria a ser para ela um mistério, se não tivesse querido saber o que significavam frases como "tivemos de o aquecer", "fizemos-lhe o teste de Apgar", "levou a injeção de vitamina K", "foi limpinho" ou "demos-lhe um suplemento e, que acalmou a fome". "Perdi totalmente os primeiros momentos de vida do meu filho. Pior, senti que não fui informada e não tive qualquer hipótese de controlar o que lhe aconteceu durante aquelas horas. Se tiver um segundo bebé, vou lutar para que isso não se repita."

Estes dois exemplos são casos extremos. Em Portugal, os partos fora do contexto hospitalar continuam a ser uma ínfima maioria. E em Portugal, grande parte das instituições de saúde esforça-se por não separar os recém-nascidos das mães durante largos períodos de tempo. No entanto, mesmo que a separação seja apenas por breves minutos e não chegue para causar angústia, o que é feito aos recém-nascidos nos primeiros minutos de vida continua a ser terreno desconhecido para os pais.


AQUECER OU NÃO AQUECER

"Num parto normal, logo que o bebé é expulso é envolvido numa toalha aquecida e colocado em cima do abdómen na mãe. Nesse momento é feita a expressão das vias aéreas e a clampagem do cordão umbilical (ver caixa)", diz Nélia Alves, enfermeira graduada da maternidade do Hospital de D. Estefânia. "Em seguida, é explicado aos pais que o bebé vai ter de ir para a mesa, sob uma fonte de calor, para não arrefecer e lhe serem prestados os cuidados iniciais".

É aqui que surge a primeira clivagem nos procedimentos. Grande parte do pessoal médico e de enfermagem defende que é imprescindível manter o bebé aquecido com recurso a fontes externas. O pediatra e pedopsiquiatra Diudonné Volker tem outra opinião. "Se o bebé nasceu bem e se a mulher também se encontra bem, não há motivo para que não permaneça os minutos que sejam precisos em cima da barriga dela, evidentemente com o corpo resguardado, mas beneficiando da melhor fonte de calor que existe: a mãe." Momentos «irrecuperáveis que vão ser determinantes para a vinculação precocíssima entre mãe e filho, que tantos efeitos terá nos tempos seguintes. A mulher precisa de começar essa ligação e é também uma grande ajuda para o bebé, cujo ambiente físico e psicológico é completamente transformado em poucos segundos, com todo o stresse que isso acarreta", advoga o médico alemão, que presta serviço no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa.

O pediatra Mário Cordeiro partilha esta argumentação. "Após o parto, a natureza faz aumentar a temperatura do peito e dos braços da mãe. E isto acontece precisamente para garantir que ele não arrefece e que pode começar a conhecer quem é a sua mãe – e, preferencialmente também o pai. Quando, eventualmente, tiver de sair do colo dela, irá muito mais sossegado e deixará também o casal mais tranquilo", defende, acrescentando: "O essencial é que, nesses preciosos primeiros momentos, o bebé não seja ‘roubado’ aos pais, sob pretexto algum. Nenhum profissional de saúde se deve outorgar o direito de querer aquela criança. Ela pertence aos pais e os pais pertencem-lhe a ela!".

Mas existem procedimentos essenciais que são possíveis de realizar, quer o bebé esteja junto dos pais, numa mesa aquecida na sala de partos – como acontece no D. Estefânia –, ou numa sala diferente daquela onde ocorreu o nascimento. É o caso do teste de Apgar (ver caixa), imprescindível para avaliar de forma rápida e eficaz o estado da criança que acaba de nascer. Determinar o sexo, nos casos em que ainda é desconhecido, e a observação de eventuais grandes malformações e uma primeira auscultação ao coração e pulmões são também intervenções que não dependem de nenhum posicionamento específico. «Há que ter paciência para esperar e dar tempo à família. Tal não significa que não se procure fazer uma primeira avaliação, nem que seja à distância, e manter um olhar vigilante sobre a forma como o bebé se está a comportar», diz Diudonné Volker.




Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

editorial-319

alt

Vamos para a rua!

O recado ficou na porta do quarto: “Não me acordem. Deitei-me tarde e gosto de dormir de...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais