“Não é só a estudar que se aprende”

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Jorge Rio Cardoso, professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, técnico superior do Banco de Portugal, é conselheiro de várias escolas e faz palestras com alunos, pais e professores para ajudar a combater o insucesso escolar.


O que significa ser “o melhor aluno”?
Jorge Rio Cardoso: O “melhor aluno” não se revela apenas nas notas, mas em todas as atitudes que tem. A Educação tem, necessariamente, de conter valores, caso contrário não cumpre o seu principal desígnio, que é preparar para exercer a cidadania.
Há muitos casos de alunos com notas excelentes, mas que cultivam distância em relação aos colegas, sentem-se meninos-prodígios, não são solidários, não criam empatia com os outros (exceção feita talvez aos professores, já que precisam deles) e têm dificuldade em trabalhar em equipa. Ora, isto, para mim, não é o “melhor aluno”, não é aquele que um dia poderá exercer a cidadania e contribuir para um mundo melhor e mais justo. O “melhor aluno” é aquele que tem uma atitude profissional e responsável perante a escola, mas que não deixa de cultivar um outro conjunto de competências que vão para além do estudo: generosidade, lealdade, honestidade e companheirismo, por exemplo.

O aluno pode trabalhar as causas do insucesso sozinho? Ou seja, ter boas notas só depende dele?
J. R. C.: Dependerá do ciclo de estudos em que está. Se estiver no 1º ou 2º ciclo do ensino básico, a ajuda parental e dos professores é muito importante. De preferência que ambas estas ajudas estejam em sintonia. A partir do 3º ciclo acredito que os alunos já possam ter as competências para trabalhar e ultrapassar estes problemas sozinhos.

Estudar é imperativo, ou há alternativas?
J. R. C.: Definitivamente, estudar é imperativo! O aluno deve assumir esta como a sua atividade principal. Agora, o que digo nos meus livros é que ele não deve apenas estudar, pois não é só a estudar que se aprende. Há competências que só podem ser adquiridas em contacto com os outros, e isso pode incluir atividades muito diversas.

Como podem as crianças alterar a sua atitude perante o estudo?

J. R. C.: Os pais preocupam-se muito com a pergunta: como motivo o meu filho para o estudo? E a questão, a meu ver, deveria ser outra: como motivo o meu filho para a vida? Se a vida da criança incluir atividades de que gosta (jogar à bola ou fazer ballet, por exemplo) e outras de que gosta menos (o estudo), e se se criarem boas rotinas, em que ela assuma progressivamente responsabilidades pelas segundas, na medida em que terá mais liberdade para praticar as primeiras, teremos, com toda a certeza, uma nova atitude.


O trabalho maior, no sentido de combater o insucesso e caminhar para ser um bom aluno, faz-se na escola ou em casa?
J. R. C.: Terá necessariamente de se fazer nos dois lados, e, mais do que isso, em sintonia entre as duas partes. O contacto estreito entre os pais e a escola (via diretor de turma, por exemplo) é muito importante. E isto não é só valido para maus alunos, mas para todos. Assim, qualquer crise por que o jovem passe – e nestas idades as mudanças são muitas – é imediatamente detetada e corrigida.


Que papel devem os pais desempenhar com os TPC?
J. R. C.: Os pais podem dar uma ajuda (sobretudo no 1º e 2º ciclo) na forma como os filhos se organizam, mas não devem participar na realização dos TPC. Os filhos devem, progressivamente, ganhar autonomia.
Mais do que insistirem para que estude um determinado tempo, devem centrar-se em “monitorizar” se fizeram os TPC e se as matérias formam adquiridas: “Então diz-me lá, quais foram as consequências dos Descobrimentos?”. Mais do que passarmos a ideia de que eles têm de estudar um determinado número de horas, temos de passar a ideia que eles têm de realizar com sucesso certas tarefas: fazer dez exercícios de Matemática ou saber explicar o conteúdo de uma determinada parte do livro de Geografia.

O sucesso escolar também se faz fora do estudo?

J. R. C.: Sim, muito. Uma criança com outras atividades não só ganha competências essenciais, como sobretudo é mais feliz, ganhando autoestima, e com isso encara o estudo de forma mais alegre e divertida.

Diz que não nos devemos fixar tanto nas notas, mas mais no esforço que a criança faz. E se ela não fizer esse esforço?

J. R. C.: O que eu digo é que os pais não se devem fixar nas notas, mas em todo o processo que leva à nota: como organiza o estudo, como faz o resumo de um livro, como tira apontamentos. Se o processo estiver bem feito, as notas aparecem.
A criança que “não quer saber” tem de ter um acompanhamento próximo. Em geral, é também uma criança sem regras, sem limites, que não sabe adiar a recompensa. A culpa (se é que há aqui culpados) provavelmente vem de trás, pelo que a criança deve fazer outras atividades extraescola, de que goste, associando-as ao estudo, de que ela gosta menos ou não gosta nada.  

Muitas crianças têm tudo, sem terem de se esforçar minimamente. Poderá também isso contribuir para o desinteresse escolar?
J. R. C.: Tem toda a razão. Os pais, sem se darem conta, acabam por, na dicotomia do Ser/Ter, pôr o Ter em primeiro lugar. O facto de as crianças não trabalharem a sua capacidade de se esforçar, de enfrentar obstáculos, de os ultrapassar, tendo as naturais frustrações, é um aspeto muito negativo na sua educação.
Os pais devem sempre passar a ideia de que o Ter (seja o que for) tem de seguir um critério, e não banalizar os brinquedos ou outras coisas não essenciais. E afastar, também, de vez, o argumento “quero, porque todos têm”. Isto não quer dizer que, caso haja essa possibilidade, nomeadamente financeira, não possamos Ter, mas há que passar a ideia de que a vida não se esgota nesse Ter, de que antes é preciso Ser alguma coisa, ter conteúdo. Aquilo que faz os outros quererem ser nossos amigos é a nossa essência, ou seja, aquilo que somos, e não tanto aquilo que temos. Devemos, pois, educar com valores.

A lógica recompensa/castigo faz sentido nesta área da escola, do estudo e das notas?
J. R. C.: Devemos fugir do modelo da recompensa, pois tem por base a motivação extrínseca, quando a motivação que devemos fomentar é a intrínseca, aquela que vem de dentro da criança. Estudar tem de ser visto pelo jovem como uma atividade que é a sua obrigação, tal como os pais têm as deles. Portanto, bons resultados não têm de dar lugar a prémios, nem más notas a castigos.
Em tudo o que tenho escrito sobre esta matéria, procuro fugir à palavra “castigo”, pois mais parece uma vingança, mas utilizo a designação de “consequência”. E, havendo regras definidas, a criança saberá, por uma questão de lógica, que se tiver maus resultados terá, como consequência, que investir mais no estudo e menos na diversão. Dito de uma forma positiva: melhores resultados trarão mais tempo livre e maior diversão.

Até que idade é que este livro faz sentido? Ou seja, até quando é que a criança consegue “dar a volta”?
J. R. C.: O livro foi concebido para todos os alunos até ao fim do secundário, embora se um aluno universitário o ler tirará muitos ensinamentos ao nível da organização.
Eu acredito que é sempre possível “dar a volta”. Temos todos que acreditar nisso. Se não acreditarmos, estamos a passar a pior mensagem para o jovem: que não acreditamos nele, que não o vamos poder ajudar. É claro que quanto mais idade o jovem tiver, mais difícil é, mas nunca impossível. Agora, nesse caso, será necessária uma estreita cooperação entre pais/escola/professores/gabinete de psicologia e orientação para que o processo possa resultar.

Que conselhos tem para os pais quando o filho não se sai tão bem na escola como seria suposto?

J. R. C.: A forma dos pais ajudarem é não criticarem excessivamente, nem se centrarem demasiado ou em exclusivo na nota. Os pais nessa situação devem dar confiança naquilo que os jovens estão a fazer. Terão de dar confiança em relação à escola, aos professores, aos colegas, às matérias estudadas. Não teve boa nota hoje, mas vai melhorar amanhã.
Nunca os devem comparar com os que têm as melhores notas. Os pais devem exigir que se esforce, pelo que não se devem concentrar apenas na nota, mas na forma como a criança chega a essa nota: como faz os resumos da aula ou do livro? Como tira os apontamentos? Como prepara as avaliações? Se tudo isto estiver bem feito, a boa nota aparecerá.
Portanto, os pais devem manter um equilíbrio entre a pressão natural para que se esforcem mais (mas a nota não será o indicador desse esforço), mas sem levar longe demais essa pressão. Se, por exemplo, o filho se esforçou, mas a nota não foi a esperada, isso deve dar lugar a um elogio em relação ao esforço e uma ajuda em termos de análise sobre o que se poderá melhorar.

E um conselho final para as crianças?
J. R. C.: O conselho é sempre o mesmo: nunca desistas! Não te compares com os outros, compara-te contigo próprio. Tenta ser melhor do que aquilo que eras há um mês atrás. Tenta arranjar o melhor método de estudo, que será aquele que melhor funcionará contigo.


Quais as principais causas de insucesso escolar?

Jorge Rio Cardoso identificou sete razões:

1. Falta de motivação e ausência de resiliência
O aluno não vê interesse nas matérias e na preparação das mesmas. Associado à desmotivação vem a ausência de resiliência, ou seja, perante um exercício de Matemática, por exemplo, se não consegue resolvê-lo à primeira, desiste imediatamente, não tem a persistência de começar de novo.

2. Falta de foco
Não ter capacidade de se focar nas matérias. Ou começa uma tarefa, mas não a leva até ao fim. Se está a ler um livro, não consegue distinguir o que é importante do acessório. Também pode querer fazer várias atividades incompatíveis em simultâneo: prestar alguma atenção na aula, mas, ao mesmo tempo, divertir-se com o colega do lado. Quer fazer as tarefas que o professor mandou para casa, mas não deixa de estar atento ao Facebook.

3. Falta de atenção e concentração
São os “cabeça no ar”. Aqueles alunos que não têm a capacidade de se concentrar na explicação de um professor. Não conseguem ouvir e refletir sobre aquilo que ouviram.

4. Dificuldade de interpretação
Leem um texto, mas não conseguem interpretar o que leram, e, por isso, não conseguem responder a questões que lhes sejam colocadas sobre o texto, nem retiram conclusões relevantes. 

5. Pouca criatividade
Em geral, não conseguem encontrar soluções novas em face daquilo que aprenderam. Dão-lhes um exemplo de aplicação, mas eles não conseguem imaginar outro exemplo diferente desse.

6. Falta de sentido de responsabilidade e de autonomia
Não conseguem controlar e gerir o seu tempo. Em regra, faltam aos seus compromissos, dando desculpas. São capazes de estudar, mas desde que estejam acompanhados dos pais ou do explicador. Sem estes, desistem, acham que não são capazes.

7. Falta de disciplina e de regras
Quando vão estudar, pensam, imediatamente, em fazer pausas para se distraírem. Perante um esforço que lhes é pedido, pensam logo: quando é que isto acaba? Com frequência interrompem quem está a falar. Não ligam aos horários e chegam atrasados com frequência.


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