“Os prémios e os castigos não funcionam”

alt

A culpa e solidão dos pais, autoridade vs permissividade, prémios e castigos, hiperatividade. Estes são alguns dos temas que Carlos González aborda no seu novo livro “Crescer juntos”. Em entrevista à Pais&filhos, o pediatra espanhol deu algumas pistas para que pais e filhos cresçam juntos em harmonia.


Cada vez mais cedo as crianças começam a interessar-se por telemóveis e tablets. De que forma os pais devem limitar o acesso a estas tecnologias?
Carlos González: Até aos dois anos (pelo menos), as crianças não deveriam ser expostas a ecrãs, segundo a Academia Americana de Pediatria. Acredita-se que pode interferir com o desenvolvimento da sua visão e com outras capacidades mentais. Lamentavelmente, muitos pais parecem convencidos de que é normal consolar um bebé que chora com um vídeo no telemóvel. Depois, o mais tarde possível, é preciso dar um exemplo adequado. Levamos o telefone para a mesa? Comemos em frente à televisão? Interrompemos uma conversa de família para espreitar o email? Claro que os nossos filhos farão o mesmo…

Que benefícios e malefícios podem ter este tipo de tecnologias?
C. G.: Para uma criança pequena não me ocorre nenhum benefício. Para as maiores, um telemóvel pode ser útil para avisar em caso de algum problema, para manter-se em contacto com os amigos… Mas muitas vezes também serve para os isolar, para olharem para o ecrã em vez de olharem para quem está à frente, para confundir “contactos de Facebook” com “amigos” …

Muitos pais e mães expõem os seus filhos na internet, colocando fotografias e contando tudo o que fazem. Como é que vê este fenómeno?
C. G.: Pode ser perigoso. É preciso perceber que, assim que se coloca qualquer coisa na internet deixamos de ter controlo sobre ela. Mesmo que apaguemos, alguém pode ter copiado. Muitas vezes, colocamos informação sobre os nossos filhos que alguns anos mais tarde pode envergonhá-los – os seus amigos saberão se eles faziam xixi na cama, se se masturbavam, se estivemos preocupados que tivessem um leve atraso psicomotor… Imagine o que sentiria se aos 12 anos alguém divulgasse o que a sua mãe disse sobre si aos dois anos. Outras vezes, damos informação pessoal suficiente para que alguém mal-intencionado consiga ganhar a confiança dos nossos filhos. Por exemplo, alguém chega ao pé da criança e diz: “Trabalho com a tua mãe na empresa XXX e ela disse para eu te vir buscar porque ela teve de ir com o teu avô XXX ao médico. E como estão as aulas de natação? A tua mãe disse-me que começaste a nadar há pouco tempo.” Dizemos ao nosso filho para não entrar no carro de um desconhecido, mas não será fácil ele acreditar que este simpático senhor é um conhecido?

Os pais querem que as crianças comecem desde cedo a participar nas tarefas de casa, como arrumar o quarto ou pôr a mesa. A partir de que idade as crianças podem ter este tipo de responsabilidade?
C. G.: Tem que se ir experimentando. Talvez se possa dizer a uma criança de três anos: “Ajuda-me, leva esta pão para a mesa”, mas passarão muitos, muitos, anos até que possa pôr a mesa inteira sem precisar de instruções.

No livro, escreve: “Tente tratar o seu primeiro filho como se fosse o segundo”. Na prática, como é que isto se faz?
C. G.: Os pais tendem a pressionar demasiado os primeiros filhos. Esperamos que sejam como nos lembramos de ter sido em criança, sem perceber que não nos lembramos dos nossos três anos, mas sim dos nossos oito, dez ou 12 anos. Queremos que fiquem quietos demasiado cedo, que ponham a mesa demasiado cedo, que sigam as regras de etiqueta demasiado cedo, que cumprimentem as pessoas, que se penteiem e que façam os trabalhos de casa demasiado cedo… Quando nasce o segundo, como já sabemos que o mais velho não fazia certas coisas, não exigimos nada ao segundo, mas continuamos a exigir ao primeiro, “porque é mais velho”.

Já tem dito várias vezes que é contra os castigos. Neste livro reforça que também não é a favor dos prémios. Qual é a melhor forma de motivar uma criança?
C. G.: A única motivação que funciona é a intrínseca, a que sai de dentro do indivíduo. Por isso, os prémios e os castigos não funcionam, porque assim a criança não pensa “estou a fazer o que quero fazer”, mas sim “estou a fazer o que os meus pais ou os meus professores querem”. Se levarmos o nosso filho para o campo é possível que ele se interesse pela natureza… mas talvez não se interesse. Se na nossa casa há livros, se ele nos vê a ler e se lhe contamos histórias é possível que ele se entusiasme pela leitura… mas talvez não se entusiasme. O melhor que podemos fazer é criar o ambiente adequado. Mas nunca vai funcionar dar-lhe prémios, castigá-lo ou pressioná-lo para que faça as coisas (“tens que ir para o campo, tens que ler livros, que fazes aqui parado todo o dia?…”)

Dedica grande parte do livro à hiperatividade. Por que razão agora há tantos diagnósticos de hiperatividade?
C. G.: Uma de duas: ou, de facto, há mais crianças hiperativas ou as crianças são iguais ao que foram sempre, mas agora parecem-nos hiperativas. Provavelmente é uma mistura destes dois fatores. Por um lado, há mais motivos para que sejam mais agitadas (exposição precoce à televisão, telemóveis e ecrãs em geral, estimulação precoce, escolarização precoce, separação da mãe); por outro lado, a nossa sociedade tolera muito mal o comportamento normal das crianças. O que antes se aceitava como sendo “coisas de crianças”, hoje em dia é tudo “problemas de comportamento”.

“A criança que se ‘porta mal’ na aula é a que mais precisa de ir ao recreio”. Como é que a escola pode ajudar as crianças a crescerem felizes?

C. G.: Devíamos ser capazes de adaptar a escola à criança e não tentar que a criança se adapte à escola. Nem todos os adultos trabalham oito horas por dias sentados num escritório em frente a um computador. Temos opções para os que não gostam deste tipo de trabalho: podem ser atletas, pilotos, atores, navegadores solitários, guardas-florestais, exploradores, veterinários… Na vida adulta, temos alternativas para quem gosta de estar sentado e para quem prefere passar o dia a mexer-se, para quem busca uma cómoda rotina e para quem prefere a novidade e a aventura, para quem gosta de falar com muita gente e para quem quer estar sozinho o tempo todo. Mas as crianças têm de ir todas para a mesma escola e aprender da mesma forma.

O que é que o preocupa mais nas crianças de hoje?
C. G.:
Preocupa-me que tantas crianças se separem tão cedo das suas mães e tantas horas por dia.


Carlos González
Além de pediatra, Carlos González é presidente da Associação Catalana Pro Lactancia Materna e ministra vários cursos sobre amamentação. Escreveu vários livros de puericultura e pedagogia e é presença assídua nos media espanhóis. Tem três filhos, “que já dormem e comem muito bem”


"Crescer Juntos"

Depois de vários livros dedicados aos bebés, Carlos González aprofunda agora a educação das crianças mais crescidas. Deixá-las serem livres e crescerem ao seu ritmo, sempre com carinho e respeito, é a sua grande premissa. Sem grandes fórmulas ou técnicas, o pediatra lembra-nos a essência da infância e mostra como a vida familiar pode ser simples e harmoniosa se deixarmos as crianças serem apenas crianças. (Editora Pergaminho).


Leia também:

“Não é preciso gritar para nos fazermos ouvir”

Educação todos discutem, pedagogia não!

O fim dos castigos!

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais