É urgente: toca a ler!



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A ideia geral que as crianças e os jovens cada vez leem menos. Livros “a sério” estão a cair em desuso, para lá dos que os professores de Português impõem nas aulas. Todavia, alguns estudiosos afirmam que a evolução tecnológica e as novas formas de leitura são equivalentes ao ler. Será? O que é, afinal, ler? É passar os olhos pelos títulos dos jornais? É ler um livro de banda desenhada? É ler Eça ou Camilo, o Diário de um Banana ou o Astérix? É reter informação vinda da Internet? É estudar os manuais escolares?

Uma coisa é ler para obter informação, em que se pretende acesso rápido e eficaz, de modo a digeri-la o mais facilmente possível, outra é a leitura passatempo, de futilidade (leitura leve, de que pouco se retém, mesmo que necessária de vez em quando), como o “pronto-a-comer” de certos jornais e revistas. Outra ainda, é o livro-memória e fonte de criatividade, sinónimo de espaço de tranquilidade e de sossego, um combate à voragem do dia-a-dia. Os seus objetivos jogam mal com a tecnologia, já que deverá proporcionar um ritmo vagaroso e saboreado, um exercício de imaginação e a gestão tranquila do tempo, muitas vezes até nos perdermos nele.

Um livro é uma transmissão da memória, é a consagração de ideias e mensagens que alguém – o escritor – decidiu expor, oferecer, partilhar com os outros. Ao contrário da leitura-informação, o objetivo principal não é acrescentar dados, mas relatar situações e histórias que permitam rever, confirmar, debater, mudar e discutir valores, ideias e conceitos, além do espaço de lazer, divertimento e prazer que deve igualmente proporcionar. O respeito e a atenção que nos merecem são os mesmos que devem merecer as pessoas que nos contam histórias e a sua memória, sem a qual será impossível a Humanidade sobreviver.

A sociedade volta as costas aos livros porque exige tudo “à la minute”, cultiva o “usa e deita fora”, e os livros, como símbolo da calma, do tempo, do voltar atrás e “(re)saborear certas passagens”, deixam de estar na moda. É difícil uma página escrita competir com um ecrã. É utopia querer que o ritmo de um romance combata de igual para igual a ação de um filme ou de uma série televisiva – mas a promoção do livro é uma urgência numa sociedade que, por inversão de alguns dos valores vigentes, arrisca-se a “dar um tiro no pé”. Se a tecnologia nos permite ganhar tempo, será exatamente para saber parar, abrandar, relentar… para atividades de lazer, endorfínicas e calmas, como ler.

Da escola à casa, das bibliotecas às livrarias, dos clubes de leitura às trocas de livros, façamos do mês de abril o mês de promoção do livro e da leitura. E que o hábito de ler comece desde bebé – só assim os livros e a leitura voltarão a ter o papel insubstituível que devem ter.

Será pena que a memória escrita, e o mistério, esforço de imaginação e abstração que a leitura de um livro representa possam ser considerados “incómodos” e que só se farão por obrigação. Será pena que o processo de deslindar o enredo, de imaginar as personagens, cenários e a ação, possam ser vistos como uma extrema maçadoria, um “atentado” às nossas células cinzentas – a realidade virtual substituiu algumas funções do cérebro humano e porventura ainda não nos apercebemos do perigo que isto constitui para a civilização e para a Humanidade.

É possível inverter a tendência das coisas. Torna-se urgente, aliás, inverter a tendência das coisas. Fica esta reflexão no mês em que se comemora, a 23, o Dia Mundial do Livro.


Crónica da revista P&F/abril 2017

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