Porque não quer ir dormir?

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O pequeno Lucas tem pouco mais de dois anos e, até há poucos dias, todas as noites ia para a sua cama feliz e contente, pela mão da mãe ou do pai, e caía rapidamente num sono tão profundo e tranquilo que dava gosto ver.

Agora, quando chega a hora de se deitar (e até um pouco antes, quando intui que o momento se aproxima), começa a desfiar o rosário de desculpas e reclamações: “Não tenho sono”, “Dói-me a barriga”, “Tenho fome”, “Quero água”, “Fica comigo”... E, quando tudo falha, Lucas recorre aos seus dotes de sedução: é impossível resistir quando olha os pais com os seus grandes olhos e sussurra: “Só mais um bocadinho, está bem?”.

Inculcar bons costumes

Razões para não querer ir para a cama há muitas, mas quase todas elas têm que ver com o estado afetivo da criança e com os hábitos que estabelecemos desde que era bebé. Se desde pequeno tivermos fomentado maus hábitos de sono e não tivermos estabelecido os rituais adequados para ir dormir, não é de estranhar que, agora, no momento de ir para a cama, esteja cheio de birras e lágrimas.

Outra questão é que, em muitos casos, o tempo que as crianças passam com o pai e a mãe é tão pouco que mandá-los deitar quando estão, por fim, a desfrutar da nossa companhia, é quase como um castigo. Se, além disso, a criança não teve um bom dia (se partiu o seu brinquedo favorito, começou a ir ao infantário, fez alguma asneira e ralharam com ela...), o mais lógico é que antes de dormir necessite de uma dose extra de companhia e mimos.

Quando as recusas se produzem de maneira esporádica, no dia em que põe entraves a ir para a cama é natural que tenha acontecido alguma coisa. Quem sabe comeu demais ao jantar, dormiu uma sesta maior que o habitual ou está ligeiramente adoentado: uma simples constipação pode alterá-lo e dificultar a conciliação do sono.

Acontecimentos excecionais, como amigos que vêm jantar a casa, a chegada ao local de férias ou qualquer outro acontecimento fora do comum, também podem perturbar a criança e alterar os preparativos que rodeiam a hora de se deitar. Nestes casos, há que tentar cumprir as rotinas ao máximo, mas, se não for possível, temos de fazer saber à criança que se trata de uma situação especial. Não há problema em saltar as normas de vez em quando, e não acontece nada de grave se um dia se deita um pouco mais tarde. No entanto, nos dias seguintes há que recuperar os hábitos de sempre.

Questão diferente é quando a dificuldade em ir para a cama se converte no habitual e as suas exigências contínuas (“Tenho sede”, “Quero fazer xixi”, etc.) começam a soar a pura desculpa. Ignorá-lo não é a solução, mas também não convém permitir que utilize estes recursos sempre que lhe convém. As duas posturas são extremas e, a longo prazo, agravam o problema.

Há que atender as suas chamadas

Primeiro é preciso comprovar se a criança terá, realmente, alguma indisposição, avaliar se é adequado dar-lhe de comer ou beber qualquer coisa leve (quanto tempo passou desde o jantar?) ou acompanhá-la à casa de banho se for caso disso. Se o que pede são mimos, não há mal nenhum em ceder. Pelo contrário: as nossas demonstrações de carinho fá-la-ão sentir-se querida e segura, condições indispensáveis para ir para a cama de boa vontade.

Contudo, o ideal nestes casos é estar atento aos seus pretextos favoritos e adiantar-se-lhe, incluindo-os nos rituais que antecedem a cama. Por exemplo, se tem sempre vontade de fazer xixi quando já está na cama, passamos a levá-lo sempre à casa de banho antes de o deitar, mesmo que não peça. Ou deixemos perto da cama uma garrafa de água com que possa saciar a sua sede inoportuna. E não nos esqueçamos dos beijos e abraços na despedida de boas noites, antes de apagar a luz.

Na realidade, o que ajuda a criança a conciliar o sono não é tanto que atendamos aos seu pedidos ou desculpas concretas, mas que convertamos o momento de ir para a cama num ritual, compartilhado pelos pais, que se repita a cada noite. Isso ajuda a criança a aceitar a situação e anima-a a ir para a cama sem dramas.

O primeiro passo é estabelecer uma hora fixa para deitar (sem rigidez, mas com firmeza). Isso não implica que, a partir desse momento, a criança tenha que adormecer, mas apenas que deve permanecer no seu quarto (de preferência metido na cama), e tentar conciliar o sono. Se não o conseguir deve, pelo menos, descansar.

Nos primeiros dias, seguramente, dedicar-se-á a brincar com os bonecos e é possível que saia do quarto e reclame a nossa atenção. Se isso acontecer, o melhor é acompanhá-la de volta à sua cama e recordar-lhe, com seriedade mas sem gritos ou ameaças, que é hora de dormir.

Embora ainda seja pequena, há que explicar-lhe que, se não dorme à noite, no dia seguinte estará muito cansada e não poderá dormir até à hora da sesta.

Ao estabelecer a hora de deitar, tenhamos em conta que o cansaço excessivo influi negativamente, pelo que não convém atrasar muito, à espera que a criança se renda ao sono. Se notamos que o nosso filho se mostra muito irritável ao fim do dia, será mais prudente adiantar o momento de o meter na cama.

E outro conselho: nunca devemos ameaçar as crianças de que as deitamos se se portarem mal. Dormir, tal como comer ou brincar, não deve ser um castigo mas uma atividade agradável de que os pequenos devem desfrutar ao máximo. O contrário só vai provocar problemas de sono.




Atividades que ajudam a dormir

Uma hora antes de ir para a cama, há que procurar criar um ambiente relaxante que favoreça o sono: apagar a televisão e as luzes intensas, pôr uma música suave... Também é aconselhável levar a cabo uma sequência de ações prévias ao descanso noturno que ajudem a criança a sossegar. Por exemplo: tomar banho, vestir o pijama, lavar os dentes, fazer xixi, ler juntos uma história, dar-lhe água, uma massagem, um beijo de boa noite...

Logicamente, estas rotinas e sequências variam de umas famílias para outras. Algumas são habituais, como a história antes de dormir, outras verdadeiramente originais, como a de uns pais que todas as noites fazem um comboio com os seus três filhos e vão passando de quarto em quarto, deixando cada um na sua “estação”.

Também não é grave introduzir pequenas mudanças no ritual que precede o sono em função das circunstâncias ou do “requerimento” da criança. Por exemplo: não há mal nenhum em deixar acesa uma luz ténue ou em colocar uma pilha de bonecos aos pés da cama, se desta forma ela se sentir mais tranquila.l

Para os mais “mimalhos”, a quem custa muito separar-se do papá e da mamã, um bom truque é deixar ao seu alcance uma camisola ou um lenço onde colocámos umas gotinhas do nosso perfume. O aroma familiar tranquiliza-os e ajuda a conciliar o sono.

Antes de dormir gostará muito de ouvir uma história, na qual ela pode ser o protagonista, ou o relato de algum acontecimento real com interesse, como o dia em que nasceu ou a forma como dormia quando era bebé...

Transformar a cama no sítio mais atractivo da casa nunca falha: uma almofada nova e suave, uns lençóis com desenhos divertidos ou algumas estrelas reflectoras coladas no tecto são algumas ideias.

Podemos conceder um tempo extra inventando algum jogo como parte do ritual de boas noites. Por exemplo, podemos permitir que vá deitando os seus bonecos, um a um, e que ele seja o último a meter-se na cama. Além disso, ver-se rodeado de “amigos” tornará a noite mais agradável.


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