Prazeres simples

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A felicidade está na moda. É tema de livros e dissertações, mote de fotografias e exposições. E receitas não faltam, como se ser feliz, desígnio supremo de qualquer humano, fosse um estado alcançável com truques e instruções. Será?
O ano passado, os dinamarqueses conquistaram-nos com o “hygge”, agora vêm os suecos falar de “lagom”. Os primeiros elegem o conforto, a simplicidade, os pequenos prazeres e o ambiente caloroso, enquanto os segundos destacam o equilíbrio, a medida exata, o suficiente e a frugalidade. Em sintonia, ambos distinguem a gratidão, a partilha e a harmonia. Palavras de ordem ou artes de bem-viver que, dizem, nos ajudam a tornar mais conscienciosos e, em última análise, a ser mais felizes.

Não sou dada a receitas ou truques universais para atingir o que quer que seja, muito menos a felicidade, mas reconheço que podemos aprender – e muito! – com alguns dos modelos  nórdicos. Em particular, na atenção que dão à simplicidade, ao equilíbrio e às relações sociais. Gosto da manta, do chocolate quente, das guloseimas, do acender das velas e da partilha de tarefas dos dinamarqueses, tiro o chapéus às três pausas para café, aos piqueniques, às férias de caravana, aos convívios entre vizinhos e ao  “conte até 10”  dos suecos.

Reconheço que há coisas para as quais é preciso tempo e disponibilidade mental (vejam-se os horários laborais e dos direitos sociais dos nórdicos!), mas admito que a maior parte dos pequenos gestos e prazeres apregoados por dois dos povos mais felizes do mundo (é, pelo menos, o que dizem os rankings) podem ser facilmente praticados por todos.
Mais. Acredito que, seguindo-lhes o exemplo (e adaptando-o à nossa vivência), coisas tão simples como um serão no sofá a partilhar uma tigela de pipocas, uma bandeja de bolos de oferecida aos colegas ou o vislumbre do pôr-do-sol na praia ao final do dia podem, de facto, tornar-nos diferentes. Tal como o conforto, a partilha, a harmonia, a responsabilidade e o convívio podem fazer de nós pessoas melhores... e mais sorridentes.

Dito isto, fico a achar que a felicidade é mesmo feita de pequenas coisas, que cabe a nós descobrir, inventar, valorizar e replicar (como se o “nirvana”, afinal, habitasse em nós). E que, mais que um estado de procura constante ou inacessível, é um objetivo de fácil conquista, feito de momentos, gestos e experiências. Singelos, mas extraordinários.  Vulgares, mas únicos. Basta parar, sentir… e saborear.


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